quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Por um fio! Suicídio na adolescência



Seja por questões de cunho religioso, moral, filosófico ou quaisquer outros, falar em suicídio é sempre um tema difícil, delicado, com contornos subtis, e transversais…

Falar em suicídio na infância e adolescência, é por isso um assunto interdito – que ninguém tem a intenção de ouvir e muito menos, refletir e discutir, até por uma questão de “pretensa proteção”. Contudo, as ideias de morte também podem surgir como uma estratégia dos jovens para lidar com problemas existenciais, como a compreensão do sentido da vida e da morte.

Segundo dados de 2012 da agência da ONU, mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo, sendo esses números subestimados, por diversos fatores que não cabem aqui discutir. O suicídio vem aumentando entre a população jovem nas últimas décadas, sendo que os adolescentes representam, atualmente, o grupo de maior risco.

O suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos!

Quando pensamos em jovens, associamos a essa fase da vida, maioritariamente, experiências positivas. Um elevado número de adolescentes, entretanto, comete suicídio, em parte, por questões como a solidão, aqui entendida como isolamento, quer emotivo ou social, ausência de amizades significativas, em quem confiem e possam partilhar seus temores e emoções, problemas de adaptação e baixo rendimento escolar, etc.

As exigências sociais e psicológicas impostas pelo crescimento, bem como as mudanças físicas e emocionais, o desenvolvimento de novos papéis, a tensão em adquirir novas habilidades e enfrentar diversos desafios, acarretam stress elevado e contínuo, que podem impulsionar muitos jovens a desenvolverem pensamentos e comportamentos suicidas.

Com relação às diferenças de género, as tentativas de suicídio são mais frequentes nas raparigas, porém, o suicídio consumado é maior nos rapazes, pois eles se utilizam de meios mais agressivos em seus propósitos.

Setenta e cinco por cento dos suicídios ocorrem em países de baixa e média renda.  Nos países com alto desenvolvimento socioeconómico, a relação entre suicídio e distúrbios psiquiátricos/psicológicos, sobretudo a depressão, abuso de álcool/drogas, está bem estabelecida. Contudo, a maioria dos suicídios ocorrem de forma impulsiva – uma reação a um momento de crise, um colapso na capacidade de lidar com as adversidades inerentes a vida (problemas económicos, rutura de relacionamentos afetivos, etc.), que, entretanto esconde sempre um mal estar antigo, às vezes tão longo quanto a idade da vítima.

Outros fatores como exposição à violência intrafamiliar, abandono em tenra idade, história de abuso físico ou sexual, transtornos de humor e personalidade, impulsividade, presença de eventos estressores ao longo da vida, suporte social e afetivo deficitários, suicídio de um membro da família, deceção amorosa, homossexualidade/transsexualidade, bullying, oposição familiar a relacionamentos sexuais, condições de saúde desfavoráveis, baixa autoestima, dificuldade de aprendizagem, dentre outros conflitos familiares, também estão fortemente associados com o comportamento suicida.

Dentre os principais fatores de risco, destaca-se a depressão, que tem papel fundamental no desenvolvimento de pensamentos e comportamentos de morte. A presença de sintomas depressivos - como sentimentos de tristeza, desesperança, falta de motivação, diminuição do interesse ou prazer, perda ou ganho significativo de peso, problemas de sono, capacidade diminuída de pensar ou concentrar-se, dentre outros - é um importante fator de risco para o suicídio. Vale ressaltar que os adolescentes com transtorno depressivo maior apresentam, em geral, humor irritável e instável, com frequentes episódios de explosão e de raiva.

Conhecer os principais fatores de risco associados ao suicídio e as diferentes formas de manifestação dos sinais a ele associados, pode ser um passo importante para o planeamento de programas de prevenção.

As taxas de suicídio também são elevadas em certos grupos, sobretudo os que sofrem com discriminação, como homossexuais, bissexuais, transgéneros e intersexuais (LGBTI), refugiados e migrantes.

Contudo, o maior fator de risco para o suicídio, são tentativas anteriores fracassadas. A prevenção não tem sido tratada de forma adequada, devido à falta de consciência de que o suicídio é um grave problema de saúde pública! Para que se possa atuar de maneira preventiva diante dos comportamentos suicidas, é preciso estar ciente e alerta para os diversos fatores de risco e de proteção.

Não subestime as alterações de comportamento dos V/ filhos! Nem tudo são manifestações típicas da adolescência.

Lamentavelmente é essa a realidade, queiramos ou não compreender, assimilar ou aceitar como legítima.






segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Há a possibilidade de se escrever uma nova história ou continuar a que já vinha sendo traçada.


Noutro dia, uma pessoa muito querida, partilhou comigo o texto que abaixo reproduzo, após a devida autorização da sua autora.
Quando o li, senti uma certa nostalgia e pensei nas diversas vezes que algo semelhante se passou comigo... Refletir sobre a passagem do tempo e sobre o tempo que dispomos uns com os outros... Espero que também gostem! Bom proveito!

"É tão bom quando um caderno, uma agenda, um bloco de notas ou uma caderneta chega ao meio. Aquela página unida, com uma costura ao centro. Sabe-se que a metade do que existe já foi, está preenchido, foi ocupado. Entretanto, ainda há a mesma quantidade de páginas a serem preenchidas daí em diante. Há a possibilidade de se escrever uma nova história ou continuar a que já vinha sendo traçada. É até possível rasgar as páginas já escritas, mas não faz muito sentido, a marca das páginas rasgadas, que não estão mais aí, significam (talvez) mais do que se ainda estivessem, não serão páginas apagadas, será a evidência do desejo de que elas nunca tivessem sido escritas, de arrependimento. E há ainda a outra parte a ser escrita, então, se as páginas forem arrancadas, a história será incompleta. 

O que aconteceria se soubéssemos quantas páginas de cadernos teríamos para escrever a nossa história com cada um com quem nos relacionamos ao longo da vida? E se soubéssemos quando ela está na metade? O quanto ainda poderemos escrever? Para quase tudo na vida se pensa em um ciclo, composto por princípio, meio e fim. Observa-se isso no próprio ciclo da vida: infância, maturidade e velhice. Nós que aqui estamos temos a chance de analisar tal processo, mas há de se salientar o fato de que nem para todos o ciclo se cumpre. Há também amizades que acabam, amores que fogem sem se despedir, que somem do mundo ou apenas da vida do outro em um piscar de olhos. Não haverá mais página alguma para ser escrita nessa história.

Na agenda, controlamos, na vida, não. O que se há de fazer? Escrever sempre o verso mais belo possível, com ou sem rima, mas que faça (muito) sentido".


M. C. V

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BEM ME QUERO!: Como detetar se você está numa relação saudável?

BEM ME QUERO!: Como detetar se você está numa relação saudável?

Como detetar se você está numa relação saudável?


Ainda que dezenas de vezes eu pense em partilhar convosco, algumas reflexões, indagações ou simples “devaneios metafísicos”, constantemente me deparo com compromissos e também muitas “distrações”, que não raramente, me desencaminham do real objetivo.
Sempre gostei de escrever, desde muito “menina” vivia com cadernos a tiracolo, que se transformavam em “diários secretos” (não tão secretos assim), porquê minha mãe lia-os de “cabo a rabo”, o que obviamente causava-me grande indignação, constrangimentos, muitas discussões e não só…
Verdade seja dita, creio ter deixado um pouco o “velho hábito”, também por alguma dificuldade linguística, que atribuo ao facto de ser brasileira e morar há 12 anos em Portugal… Ou seja, já desaprendi como se escreve corretamente o “português do Brasil” e não domino as regras gramaticais, sobretudo no que diz respeito ao uso dos verbos, no “português europeu”. Assim, posso afirmar que a minha escrita, fruto da migração, tornou-se uma idiossincrasia.
Portanto, ainda que possa vir a ferir algumas suscetibilidades, me perdoem tanto brasileiras (os) como portuguesas (es)!
Estou no carro, numa tarde de sábado (isso foi ontem), cinzento e chuvoso, à espera do meu filho mais novo, que está no treino de “Basket”. Como tenho de esperá-lo por mais de hora e meia, resolvo aproveitar esse tempo para escrever alguma coisa de jeito! Procuro por caneta (que de preferência escreva) e algum papel (encontro toneladas de faturas de supermercado e catálogos promocionais) e finalmente entrego-me ao ato, sem pestanejar (sei que para nós brasileiros estas frases soam “um bocado”, estranhas)…
A primeira ideia que surge é escrever sobre “relações tóxicas”, porquê mensalmente acompanho dezenas de pessoas que mantêm vínculos “sanguessugas”, ou como o PE. Fábio de Melo refere em seu livro – Quem Me Roubou de Mim? – indivíduos cujos parceiros (as), “sequestraram a subjetividade do outro”.
Contudo, a fim de romper a retórica de que nós psicólogos, estamos sempre a retratar problemas, achei mais pertinente (ainda mais agora que o frio está à porta), falar sobre ligações saudáveis!
Mas o que é ou deveria ser uma relação salubre??? Ainda que cada indivíduo possa ter diferentes expetativas e conceitos acerca de tema tão vasto e profundo, imagino que algumas premissas sejam fundamentais e “se calhar”, universais… Estar com o outro, seja este outro (a) quem quer que seja, deve “acrescentar” (enriquecer, adicionar) e “edificar” (construir, induzir ao bem e à virtude) o parceiro (a), tornando a vida em comum um processo de partilha, tolerância e autoconhecimento recíproco.
Numa relação saudável há que coexistir o “par” e o “particular”, ou seja, há que ter “espaço” (lugar), para cada indivíduo desenvolver às suas próprias capacidades e interesses, bem como exprimir livremente e sem “amarras” ou “reticências”, seus pensamentos, emoções ou ideologias (religiosas, políticas ou sociais).
Numa ligação construtiva, cada elemento sente-se “incondicionalmente” respeitado e valorizado na sua essência e igualmente desenvolve ou aprimora recursos e estratégias para proporcionar ao outro elemento, a mesma capacidade de “acolhimento” e “satisfação”.
Não, uma relação saudável não é e nunca será perfeita, porquê somos seres imperfeitos e em constante desenvolvimento (físico, emocional, psicológico e social), mas sem dúvida será uma ligação com equilíbrio, equidade e solidariedade. Pessoas que se unem para partilhar uma vida ou parte dela e que estabelecem um vínculo onde não existe espaço para discussões infundadas, desrespeito, desconfiança. Viver um relacionamento salutar é não perder tempo em “discutir a relação” e sim vivê-la; explorar sensações, emoções, partilhar momentos, perspetivar o futuro e recordar com satisfação o passado.
Sugiro que nesse momento, faça um exercício bastante simples. Imagine viver a sua relação (assim, da forma que está nos últimos meses), nos próximos cinco, dez anos ou 20 anos… Veja quais são as emoções e reações físicas, que esse pensamento desencadeia. Feche os olhos e observe atentamente.
Se você vive uma relação saudável, seu corpo e suas emoções manifestar-se-ão dessa maneira! O corpo é sempre o melhor sinalizador. Caso contrário, reflita, fique atento (a) e procure apoio de um profissional.
Excelente semana para todas e todos!

Ana Saladrigas

domingo, 27 de março de 2016


Re-significar a Morte para honrar a Vida!

A morte e o morrer são sempre temas sensíveis de abordar, sobretudo porque tocam a todos nós e aos que conhecemos direta ou indiretamente e diz respeito às experiências do passado, presente e futuro, do qual ninguém fica indiferente.
Contudo, ainda que desde o primeiro suspiro de vida, esteja implícito o derradeiro momento da morte, ninguém (geralmente), nos ensina a morrer!

Com frequência somos “impedidos” de manter um “contato saudável” com a morte, que geralmente ou é tratada como um tema “tabu” e por isso nunca assunto natural de conversas entre familiares e amigos, ou tema de extrema “banalização” (consoante diversos fatores que não cabem aqui, descortinar).

A perda de um ente querido é sem sombra de dúvida uma experiência devastadora – a teoria da vinculação de Bowlby (1980 cit. por Sanders, 1999) diz respeito aos laços afetivos que são criados pela familiaridade e proximidade com as figuras parentais no início da vida. Eles surgem da necessidade que se tem de se sentir seguro e protegido.

A morte não é pensada como um evento natural da vida, ao contrário, é colocada habitualmente num futuro distante e sempre relacionada ao outro. Sentimentos negativos afloram com a morte - insucesso, impotência, rancor, indignação, dor, culpa, perplexidade, desamparo, injustiça diante da perda, etc.

A morte na cultura ocidental, talvez represente de forma mais traumática o sentimento de perda, sobretudo porque evitamos pensar na hipótese de “deixar de ter”, seja o que for! A sociedade e a família mudaram a maneira de ver e “viver” a morte, ainda que a religião, cultura, rituais mortuários, experiências anteriores e muitos outros fatores interfiram na forma como representamos e enfrentamos a morte e o morrer.

Na sociedade capitalista, produtiva e supostamente “saudável”, não existe lugar para a morte, que fica sempre à margem, a espreita de outra “vítima”. A morte não é um castigo, todos nós, bons ou não, vamos morrer! Não existe morte “boa” ou “má” – qualquer morte implica dor, sofrimento, pesar, tristeza…
Do ponto de vista psicológico, existem quatro tarefas essenciais no processo de luto, que devem ser concretizadas para que o equilíbrio seja restabelecido: 

Aceitar a realidade da perda
A aceitação da perda envolve não apenas um processo cognitivo (intelectual), mas sobretudo emocional, que demora o seu tempo cronológico e varia muito de pessoa para pessoa. Os rituais tradicionais (funeral, missas, ou outros consoante a religião), ajudam muitos enlutados a avançarem na aceitação da perda.

Elaborar a dor da perda
A pessoa em luto tem que ter “espaço” para vivenciar a dor causada pela perda (evitar ou suprimir a expressão dessa dor ira provavelmente, prolongar o processo do luto).

Ajustar-se a um ambiente em que o falecido está ausente
Ajustar-se a um novo ambiente tem diferentes significados, dependendo da relação que se tinha com a pessoa falecida e os vários papéis que ela desempenhava. Ainda assim envolve geralmente ajustamentos externos (funcionamento diário no mundo), ajustamentos internos (sentido de si mesmo) e ajustamento de crenças (valores, crenças, considerações sobre o mundo).

Reposicionar em termos emocionais a pessoa que faleceu e prosseguir com a vida.
As memórias de uma relação significativa vão sempre permanecer! Contudo, de acordo com Volkan (cit. por Worden, 1991), o processo de luto termina, quando o enlutado deixar de ter necessidade de reativar a representação do falecido, com uma intensidade exagerada no quotidiano.

Essa parece ser a tarefa mais difícil de alcançar – algumas pessoas ficam condicionadas (presas) a ela e não raro, tomam consciência disso muito tempo depois, quando percebem que as suas vidas ficaram estagnadas após a perda.

Quando uma pessoa consegue recordar, falar e partilhar experiências do falecido sem dor, ainda que com saudades e permite-se reinvestir as suas emoções na vida e nos vivos, podemos dizer efetivamente que o processo do luto está concluído.

A morte demanda aceitação, renuncia, compreensão, aprendizagem e reposicionamentos… Não, não é fácil, mas é preciso seguir adiante, ultrapassar limites, crenças e a própria dor!


Ana Saladrigas

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A vida à dois requer empenho!



Mulheres e homens percecionam as relações afetivas, amorosas e sexuais de maneiras e intensidades diferentes, fruto de modelos e papéis que remontam aos tempos paleolíticos, ainda que continuem inscritos até hoje no nosso ADN… Não há como escapar!
No exercício da minha profissão, acompanho experiências e formas de relacionamentos distintos entre homens e mulheres; não existe um modelo que abarque todas as dimensões, contudo posso reiterar que as espectativas de ambos são muito distintas! Isso confere frustração, instabilidade emocional, baixa autoestima e sofrimento, tanto no sexo masculino como no feminino.
As mulheres, sobretudo as mais “maduras” são mais exigentes e esperam dos homens algumas atitudes e características de personalidade, que passam completamente desapercebidas pelo sexo oposto!
Ainda que cada pessoa e cada relação tenham as suas necessidades e particularidades e que não haja nenhuma “receita” para relacionamentos “perfeitos”, o certo é que algumas atitudes fazem a diferença e contribuem, ou não, para a manutenção de uma vida em conjunto com maior ou menor grau de satisfação.
As mulheres valorizam a educação, gentileza e cordialidade, esperam respeito e sinceridade, ainda que a frontalidade possa magoar -  a isso chama-se lealdade!
As mulheres esperam dos parceiros amorosos ATITUDES – é frustrante para uma mulher quando os homens dizem frases como “o que decidires está bem”, “faça como achares melhor” (mas isso é o que já fazemos quando não estamos numa relação!). É imprescindível nos dias que correm a divisão das tarefas, a tomada de decisão e a responsabilidade inerente de quem desejou assumir uma relação, uma família e tudo o que isso realmente implica, sobretudo numa altura de tantos desafios profissionais e familiares.
A rotina, a “mesmice” do dia-a-dia, cria incondicionalmente um espaço de algum acomodamento e desilusão, que é preciso colmatar através de pequenas, mas poderosas atitudes! As mulheres e os homens, gostam de ser surpreendidos! O fator surpresa desencadeia uma avalanche de descargas hormonais e no caso de uma surpresa positiva, consequentemente bem-estar! E surpreender não é assim tão difícil!
Apanhar os filhos na escola e deixar na casa dos avós para um jantar romântico ao meio da semana, um banho a dois logo pela manhã, uma SMS “apimentada” ou foto sensual no meio de uma tarde chuvosa… Solte a imaginação! Pequenos gestos “esquentam” uma relação, basta começar!
Mulheres esperam ser valorizadas pelos companheiros e isso não significa receber elogios que soem exagerados ou desproporcionais, mas é importante sentirmo-nos únicas e especiais (quem não precisa não é mesmo ?!). Não devemos perder oportunidades de reforçar características ou atitudes que apreciamos (chamamos de reforço positivo), caso contrário essas particularidades pulverizam-se no “Tempo” e “Espaço” da relação.
Não há nada mais desencorajador para uma mulher que arranjar-se para um encontro ou jantar (cuidado com o cabelo, uma roupa sensual, um perfume sedutor) e o companheiro nem dar por isso! Os homens muitas vezes, sobretudo quando já estão numa relação, tem a tendência de descuidarem-se da própria aparência, tornam-se mais “desligados”… A atração física e  intelectual (para as mulheres é imprescindível admirar o seu homem) é um importante estímulo para a manutenção do desejo sexual, por isso algo que precisamos sempre que possível “alimentar”. As mulheres sentem-se atraídas por pequenos pormenores!
Ser confiante e transmitir confiança é também vital para uma relação. Por mais envolvido ou envolvida que uma pessoa esteja, precisa dar espaço ao outro. Somos seres sociais e necessitamos interagir com outras pessoas e com nós próprios, sim porque não temos todos os mesmos interesses e aptidões e tão pouco os mesmos “times”. Nenhuma relação é uma ilha e se inicialmente (quando estamos apaixonados) isso até parece ter alguma “piada”, com o tempo vira um pesadelo! A liberdade de ir e vir, ter amigos e amigas que não sejam comuns, participar de eventos distintos, em nada compromete a relação – deve haver espaço para o desenvolvimento dos diferentes papéis sociais! (filha (o), mãe (pai), irmã (irmão), aluna (aluno), profissional, mulher (homem), etc.).
Fundamental em qualquer relação existir o desejo de crescer, desenvolver-se, ou seja, criar metas para o futuro, sejam elas a curto, médio ou longo prazo. Podem ser “simples” ou mais arrojadas como (arrumar um novo emprego, estudar algo diferente, trocar de carro, realizar uma viagem)… As pessoas precisam ter sonhos, alguma ambição, desejo e vontade de crescer, necessidade de perseguir um caminho em busca de um objetivo, sonhar junto e individualmente, pois novamente não vamos ter os mesmos desejos, mas deverá haver espaço para as prioridades de cada elemento do casal e ambos devem apoiar-se mutuamente para o alcance dessas metas!
O companheirismo é uma atitude implícita aos relacionamentos, contudo as pessoas queixam-se de sentirem-se cada vez mais sozinhas! Se nos anos 50 – 60 o grande vilão destruídor das famílias foi o então televisor, atualmente a disputa é bem mais acirrada! (Tablets, smartphones, redes sociais e outras tecnologias), que apesar de serem parte integrante da socialização atual, tem comprometido gravemente as relações afetivas e de intimidade. Há que utilizar essa panaceia ao favor das relações, equacionar o tempo que dispensamos às centenas de aplicativos, redes sociais, etc. e àquele que dedicamos aos amigos, companheiros, familiares, filhos, etc.
Como tudo na vida, uma relação também tem seus momentos menos bons, alguns até mesmo muito difíceis, quase insuportáveis. Nestas situações é necessário manter-se presente (sem contudo, ser invasivo), transmitir confiança, oferecer apoio e conforto, buscar compreender o outro, ainda que a nossa perspetiva acerca do problema possa ser diferente!
Respeitar fundamentalmente a dor do outro, legitimá-la, sendo assim um elemento imprescindível na superação do problema, seja ele individual, do casal ou familiar. A vida à dois, ou em família, requer empenho, dedicação, flexibilidade, humildade e resiliência (capacidade para lidar com as dificuldades inerentes e conseguir ferramentas para ultrapassá-las).

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A química da paixão

Boa noite!
Eu sei que estou em grande falta com todos vocês e lamento o tão pouco tempo que consigo dispor para a troca de informações e conversas "ao pé do ouvido", que julgo importantes e pertinentes.
Hoje para reiniciar essa fase de aproximação, nada melhor que falarmos sobre os sentimentos e a respectiva bioquímica...
É comum no consultório, lidarmos com situações "limites", não apenas traumáticas, mas sobretudo intensas, quer pelo impacto negativo, ou mesmo positivo de alguns sentimentos avassaladores, que são capazes de "desorganizar" todo um sistema adaptativo.
Quem não conhece aquele símbolo da paixão que traz a flecha do cupido atravessando o coração? É uma figura de linguagem popular e antiga, com raízes na mitologia greco-romana. Na imagem, o alvo do deus alado é o coração, provavelmente por causa da aceleração cardíaca e do fogo no peito que sentimos quando cruzamos com quem julgamos ser a nossa tão almejada cara-metade. A flecha no entanto atinge é a cabeça e não o coração! Suspiros, suores, olhares perdidos e todas as sensações comuns àqueles que estão encantados com alguém, nascem no cérebro e são resultado de uma combinação de componentes que se somam a fatores culturais e genéticos capazes de levar suas vítimas às nuvens ou ao inferno.
Havendo interesse por outra pessoa, a química rola com substâncias que provocam sintomas intensos e avassaladores em todo o corpo. Os mais evidentes são o aumento da pressão arterial, da freqüência respiratória e dos batimentos cardíacos, a dilatação das pupilas, os tremores e o rubor, além de falta de apetite, concentração, memória e sono. Tudo provocado por alterações em regiões específicas já identificadas pela ciência com a ajuda de ressonância magnética funcional e outras tecnologias.
Vamos entender quem são as responsáveis por essas alterações!
Uma das responsáveis pelas descargas de emoções para o coração e as artérias é a dopamina, um neurotransmissor da alegria e da felicidade liberado no organismo para potencializar a sensação de que o amor é lindo. Ficamos agitados, corajosos e dispostos a realizar novas tarefas, apesar de dormirmos e comermos mal. “O mecanismo cerebral é idêntico ao de se viciar em cocaína”, diz o neurocientista Renato Sabbatini, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas. O barato é tão forte que o apaixonado pede a Deus – ou aos astros ou a quem quer que seja – que dure para sempre. No livro Por que nos Apaixonamos (Ediouro, 2005), a neurocientista francesa Lucy Vincent afirma que a dependência que o enamorado tem de seu eleito leva a uma espécie de síndrome de abstinência quando eles se distanciam.
Em pesquisas recentes, estruturas do cérebro chamadas núcleo caudado, área tegmentar ventral e córtex prefrontal se mostraram mais ativadas em pessoas apaixonadas. São zonas ricas justamente em dopamina e endorfina, um neurotransmissor com efeito semelhante ao da morfina. Juntos, esses agentes estimulam os circuitos de recompensa, os mesmos que nos proporcionam prazer em comer quando sentimos fome e em beber quando temos sede. Estar em contato com a alma gêmea, mesmo que por telefone ou e-mail, resultará na liberação de mais endorfina e dopamina, ou seja, de mais e mais prazer.
A feniletilamina, parecida com a anfetamina, é outra molécula natural associada a essa avalanche de transformações, assim como a noradrenalina, que contribui com a memória para novos estímulos. Por isso os apaixonados costumam se lembrar da roupa, da voz e de atos triviais de seus amados. Hormônios como a oxitocina e vasopressina, responsáveis pela formação dos laços afetivos mais duradouros e intensos, como o da mãe com o filho, também tendem a aumentar nas fases mais agudas, preparando o terreno para um relacionamento estável.
Novos elementos
Apesar de a ciência já ter mapeado os principais elementos envolvidos no mecanismo da paixão, novos agentes continuam surpreendendo. Em novembro de 2005, a publicação científica americana Psychoneuroendocrinology divulgou um trabalho da Universidade de Pavia, Itália, mostrando que euforia, dependência e outros sintomas estão ligados a proteínas do cérebro. Nos primeiros meses da relação, o componente identificado como NGF – o mesmo que provoca suor nas mãos, entre outras alterações – aparece no sangue em níveis elevados. Os cientistas da equipe analisaram o comportamento da substância em 58 homens e mulheres entre 18 e 31 anos no auge do envolvimento e compararam com um estudo feito com solteiros e indivíduos com relacionamentos de longo prazo, já observando mudanças. Entre 12 e 24 meses depois, avaliaram 39 pessoas que ainda estavam com o mesmo parceiro e viram que os níveis da proteína tinham se normalizado.
Enquanto a maioria das substâncias químicas apresenta níveis mais elevados no auge da paixão, a serotonina, que tem efeito calmante e nos ajuda a lutar contra o estresse, diminui em cerca de 40%. O índice foi observado no estudo da italiana Donatella Marazziti, da Universidade de Pisa. Chamou atenção da pesquisadora o fato de o percentual ser próximo ao da falta desse mesmo neurotransmissor naqueles que sofrem de transtorno obsessivo compulsivo. Para Donatella, isso explicaria o pensamento incontrolável, algumas atitudes insanas, quase psicóticas, e a fixação numa única pessoa na fase aguda. A diferença é que, quando se trata de paixão, essa loucura se resolve em poucas semanas, no máximo alguns meses, com as taxas voltando ao normal, o organismo se acalmando e o amor – estágio seguinte e sem efeitos colaterais severos, inclusive por atuar numa zona diferente do cérebro – tomando conta da pessoa. Outra razão para a queda da serotonina é a produção de mais hormônios sexuais, que facilitam a aproximação e a formação de pares estáveis, uma missão gravada em nossos genes.
O prazo de validade do efeito paixão varia de pesquisa para pesquisa. Sabbatini observa que o fundamental é a paixão passar naturalmente, o que acontece em alguns meses, com o cérebro descarregando menos dopamina e reduzindo as endorfinas. “No auge, as alterações químicas são tão intensas e tão estressantes que, se durarem tempo demais, o organismo entra em colapso”, diz.
Diferenças de gênero
Agora responda rápido: quem é mais fraco para a paixão? A mulher ou o homem? Se você pensa que elas é que se apaixonam mais à primeira vista, não entende nada de mulheres. São os machões que tendem a se deixar levar primeiro pela química. Por outro lado, o encantamento deles costuma ser mais fulminante, podendo durar algumas horas apenas. “Mulheres são mais cautelosas, dependem de romantismo, e a sua paixão é mais baseada no psicológico. Só que, quando se instala nelas, normalmente demora mais tempo para passar”, afirma Sabbatini. As diferenças não param por aí. Fisiologicamente, a testosterona faz os dois sexos entrarem numa espécie de meio-termo na fase inicial do flerte. “Apesar de ser o hormônio sexual típico do homem, ele está presente nos dois organismos, porém em menor quantidade no feminino. Quando ocorre a paixão, a substância aumenta e a mulher sente mais libido sexual. Nos homens, a testosterona cai, deixando-o menos agressivo”, explica.
E o que será que a nossa suposta alma gêmea tem que as outras pessoas ao nosso redor não têm? Uma das teorias mais alardeadas é a de que sempre buscamos feromônios compatíveis. Sinais bioquímicos de disponibilidade sexual, os feromônios são substâncias naturais e inodoras exaladas continuamente pelos animais através de poros, saliva, urina e outros canais. Em borboletas, lobos e macacos, por exemplo, a eficácia desses sinalizadores sexuais é evidente, já que a atração dos parceiros entra pelo nariz. Na espécie humana, há inúmeras teorias que afirmam que os feromônios são essenciais para provocar as primeiras trocas de olhares. Ainda assim, há quem dê mais crédito para a atração física e às boas lembranças de momentos vividos juntos. “Aparentemente, o homem é mais visual”, diz o psiquiatra Teng Chei Tung, do Hospital das Clínicas de São Paulo, especializado em ansiedade e depressão. Ele chama atenção para o fato de os principais testes com humanos usarem a fotografia do ser amado para monitorar as ativações cerebrais. “Provavelmente, num primeiro momento, o indivíduo se decide pela imagem do alvo, buscando atributos físicos que denotem um bom reprodutor – ou reprodutora –, de acordo com os seus padrões. Só que para se chegar à paixão é preciso algo mais, como uma experiência de convívio, de mais motivações que ativem as áreas de gratificação”, diz o psiquiatra.
Paixão ou amor?
Resistir à paixão não é tarefa fácil, pois ela não avisa quando vai se instalar. Pode desembarcar no cérebro a qualquer momento a partir da adolescência. Como também é algo regulado por hormônios sexuais e as mulheres entram na menopausa por volta dos 50 anos, os homens mantêm a capacidade de se apaixonar por mais tempo. Apesar de atuarem em zonas distintas do cérebro, a fronteira entre paixão e amor não está bem definida. Para estudar as diferenças dessas fases – e da atração sexual, que é uma terceira emoção e que também ocorre em outra área cerebral –, a antropóloga americana Helen Fisher, da Universidade de Rutgers, de Nova Jersey, montou um quadro com ajuda de neurobiólogos.  É a ordem para ir à caça, com ação intensa de testosteronA primeira etapa para a formação de um casal é a busca pela gratificação sexual urgente.a. A paixão é a atração por uma pessoa em particular, a tal explosão química, irrigada por dopamina, endorfinas e outros componentes. Se correspondida, deve durar o tempo necessário para se conhecer e se decidir se dá para seguir em frente. Quando o fogo baixa, o relacionamento pode continuar, mas o que conta é companheirismo, apego e vontade de dividir o ninho, procriar e cuidar da prole.
A fogueira da euforia, entretanto, pode ficar sem lenha e nem evoluir para a terceira etapa. “Há gente viciada no mecanismo da paixão, que busca um novo objeto de desejo toda vez que os sintomas passam”, diz Sabbatini. “Nas pessoas, quando isso é muito freqüente, pode haver alguma alteração de personalidade, como bipolaridade”, complementa Teng. E tem a turma que nem chega a se apaixonar. “Alguns conseguem bloquear o processo ativando áreas mais racionais do cérebro”, afirma o psiquiatra. “Normalmente, acontece com quem é inseguro ou ansioso. É quando o medo vence nas decisões. Para não correr riscos, racionaliza a situação e bloqueia.”
Ninguém nega que sentir as borboletas no estômago no início da paixão é uma coisa gostosa. O problema é quando a química toda demora a passar e seus efeitos prejudicam o cotidiano e estressam demais o organismo. Pior ainda é se o eleito não corresponde ao apaixonado, que se deprime e se angustia. O que fazer, nesse caso? Existem drogas, normalmente usadas em tratamentos cardíacos, que podem inibir ou pelo menos reduzir sofrimentos provocados pela paixão. Os efeitos desses medicamentos, porém, são passageiros.
Assim sendo, a psicoterapia pode ser um caminho adicional no que diz respeito ao controle de alguns sintomas provocados pelo sistema nervoso simpático (taquicardia, tremores, sudorese, dificuldade de concentração, etc.) através de exercícios específicos e também maior compreensão dos aspetos inerentes ao processo, suas implicações e capacidade de decisão, superação de obstáculos ou mudanças de paradigmas.

Extraído do site: http://super.abril.com.br/cotidiano/quimica-paixao-446309.shtml