AS PALAVRAS QUE ME PARECEM PERTINENTES PARA DESCREVER A REALIZAÇÃO E MANUTENÇÃO DESTE BLOG SÃO: CONHECIMENTO, REFLEXÃO, PARTILHA, CRESCIMENTO, GRATIDÃO E UM PROFUNDO DESEJO DE PODER CONTRIBUIR DE ALGUMA FORMA PARA O DESENVOLVIMENTO E QUALIDADE DE VIDA DAS PESSOAS.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Como detetar se você está numa relação saudável?
Ainda que dezenas de vezes eu
pense em partilhar convosco, algumas reflexões, indagações ou simples “devaneios
metafísicos”, constantemente me deparo com compromissos e também muitas “distrações”,
que não raramente, me desencaminham do real objetivo.
Sempre gostei de escrever, desde
muito “menina” vivia com cadernos a tiracolo, que se transformavam em “diários
secretos” (não tão secretos assim), porquê minha mãe lia-os de “cabo a rabo”, o
que obviamente causava-me grande indignação, constrangimentos, muitas
discussões e não só…
Verdade seja dita, creio ter
deixado um pouco o “velho hábito”, também por alguma dificuldade linguística,
que atribuo ao facto de ser brasileira e morar há 12 anos em Portugal… Ou seja,
já desaprendi como se escreve corretamente o “português do Brasil” e não domino
as regras gramaticais, sobretudo no que diz respeito ao uso dos verbos, no “português
europeu”. Assim, posso afirmar que a minha escrita, fruto da migração,
tornou-se uma idiossincrasia.
Portanto, ainda que possa vir a
ferir algumas suscetibilidades, me perdoem tanto brasileiras (os) como portuguesas
(es)!
Estou no carro, numa tarde de
sábado (isso foi ontem), cinzento e chuvoso, à espera do meu filho mais novo,
que está no treino de “Basket”. Como
tenho de esperá-lo por mais de hora e meia, resolvo aproveitar esse tempo para
escrever alguma coisa de jeito! Procuro por caneta (que de preferência escreva)
e algum papel (encontro toneladas de faturas de supermercado e catálogos
promocionais) e finalmente entrego-me ao ato, sem pestanejar (sei que para nós
brasileiros estas frases soam “um bocado”, estranhas)…
A primeira ideia que surge é
escrever sobre “relações tóxicas”, porquê mensalmente acompanho dezenas de
pessoas que mantêm vínculos “sanguessugas”,
ou como o PE. Fábio de Melo refere em seu livro – Quem Me Roubou de Mim? – indivíduos
cujos parceiros (as), “sequestraram a subjetividade do outro”.
Contudo, a fim de romper a retórica
de que nós psicólogos, estamos sempre a retratar problemas, achei mais
pertinente (ainda mais agora que o frio está à porta), falar sobre ligações saudáveis!
Mas o que é ou deveria ser uma relação
salubre??? Ainda que cada indivíduo possa ter diferentes expetativas e
conceitos acerca de tema tão vasto e profundo, imagino que algumas premissas
sejam fundamentais e “se calhar”, universais… Estar com o outro, seja este
outro (a) quem quer que seja, deve “acrescentar” (enriquecer, adicionar) e “edificar”
(construir, induzir ao bem e à virtude) o parceiro (a), tornando a vida em
comum um processo de partilha, tolerância e autoconhecimento recíproco.
Numa relação saudável há que coexistir o “par” e o “particular”, ou
seja, há que ter “espaço” (lugar), para cada indivíduo desenvolver às suas
próprias capacidades e interesses, bem como exprimir livremente e sem “amarras”
ou “reticências”, seus pensamentos, emoções ou ideologias (religiosas,
políticas ou sociais).
Numa ligação construtiva, cada
elemento sente-se “incondicionalmente” respeitado e valorizado na sua essência
e igualmente desenvolve ou aprimora recursos e estratégias para proporcionar ao
outro elemento, a mesma capacidade de “acolhimento” e “satisfação”.
Não, uma relação saudável não é e
nunca será perfeita, porquê somos seres imperfeitos e em constante
desenvolvimento (físico, emocional, psicológico e social), mas sem dúvida será
uma ligação com equilíbrio, equidade e solidariedade. Pessoas que se unem para
partilhar uma vida ou parte dela e que estabelecem um vínculo onde não existe
espaço para discussões infundadas, desrespeito, desconfiança. Viver um relacionamento
salutar é não perder tempo em “discutir a relação” e sim vivê-la; explorar
sensações, emoções, partilhar momentos, perspetivar o futuro e recordar com
satisfação o passado.
Sugiro que nesse momento, faça um
exercício bastante simples. Imagine viver a sua relação (assim, da forma que
está nos últimos meses), nos próximos cinco, dez anos ou 20 anos… Veja quais
são as emoções e reações físicas, que esse pensamento desencadeia. Feche os
olhos e observe atentamente.
Se você vive uma relação saudável,
seu corpo e suas emoções manifestar-se-ão dessa maneira! O corpo é sempre o
melhor sinalizador. Caso contrário, reflita, fique atento (a) e procure apoio
de um profissional.
Excelente semana para todas e todos!
Ana Saladrigas
domingo, 27 de março de 2016
Re-significar a Morte
para honrar a Vida!
A morte e o morrer são sempre temas sensíveis de abordar,
sobretudo porque tocam a todos nós e aos que conhecemos direta ou indiretamente
e diz respeito às experiências do passado, presente e futuro, do qual ninguém
fica indiferente.
Contudo, ainda que desde o primeiro suspiro de vida, esteja
implícito o derradeiro momento da morte, ninguém (geralmente), nos ensina a
morrer!
Com frequência somos “impedidos” de manter um “contato saudável”
com a morte, que geralmente ou é tratada como um tema “tabu” e por isso nunca
assunto natural de conversas entre familiares e amigos, ou tema de extrema “banalização”
(consoante diversos fatores que não cabem aqui, descortinar).
A perda de um ente
querido é sem sombra de dúvida uma experiência devastadora – a teoria da vinculação de Bowlby
(1980 cit. por Sanders, 1999) diz respeito aos laços afetivos que são criados
pela familiaridade e proximidade com as figuras parentais no início da vida.
Eles surgem da necessidade que se tem de se sentir seguro e protegido.
A morte não é pensada como um evento natural da vida, ao
contrário, é colocada habitualmente num futuro distante e sempre relacionada ao
outro. Sentimentos negativos afloram com a morte - insucesso, impotência,
rancor, indignação, dor, culpa, perplexidade, desamparo, injustiça diante da
perda, etc.
A morte na cultura ocidental, talvez represente de forma mais
traumática o sentimento de perda, sobretudo porque evitamos pensar na hipótese
de “deixar de ter”, seja o que for! A sociedade e a família mudaram a maneira
de ver e “viver” a morte, ainda que a religião, cultura, rituais mortuários,
experiências anteriores e muitos outros fatores interfiram na forma como representamos
e enfrentamos a morte e o morrer.
Na sociedade capitalista,
produtiva e supostamente “saudável”, não existe lugar para a morte, que fica
sempre à margem, a espreita de outra “vítima”. A morte não é um castigo, todos nós,
bons ou não, vamos morrer! Não existe morte “boa” ou “má” – qualquer morte
implica dor, sofrimento, pesar, tristeza…
Do ponto de vista psicológico, existem quatro tarefas essenciais no processo de luto, que devem ser
concretizadas para que o equilíbrio seja restabelecido:
Aceitar a
realidade da perda
A aceitação
da perda envolve não apenas um processo cognitivo (intelectual), mas sobretudo emocional,
que demora o seu tempo cronológico e varia muito de pessoa para pessoa. Os
rituais tradicionais (funeral, missas, ou outros consoante a religião), ajudam
muitos enlutados a avançarem na aceitação da perda.
Elaborar a
dor da perda
A pessoa em luto tem que ter “espaço” para
vivenciar a dor causada pela perda (evitar ou suprimir a expressão dessa dor
ira provavelmente, prolongar o processo do luto).
Ajustar-se a
um ambiente em que o falecido está ausente
Ajustar-se a um novo ambiente tem diferentes
significados, dependendo da relação que se tinha com a pessoa falecida e os
vários papéis que ela desempenhava. Ainda assim envolve geralmente ajustamentos
externos (funcionamento diário no mundo), ajustamentos internos (sentido de si
mesmo) e ajustamento de crenças (valores, crenças, considerações sobre o
mundo).
Reposicionar
em termos emocionais a pessoa que faleceu e prosseguir com a vida.
As memórias de uma relação significativa vão
sempre permanecer! Contudo, de acordo com Volkan (cit. por Worden, 1991), o
processo de luto termina, quando o enlutado deixar de ter necessidade de
reativar a representação do falecido, com uma intensidade exagerada no
quotidiano.
Essa parece ser a tarefa mais difícil de
alcançar – algumas pessoas ficam condicionadas (presas) a ela e não raro, tomam
consciência disso muito tempo depois, quando percebem que as suas vidas ficaram
estagnadas após a perda.
Quando uma pessoa consegue recordar, falar e partilhar
experiências do falecido sem dor, ainda que com saudades e permite-se reinvestir
as suas emoções na vida e nos vivos, podemos dizer efetivamente que o processo
do luto está concluído.
A morte demanda
aceitação, renuncia, compreensão, aprendizagem e reposicionamentos… Não, não é
fácil, mas é preciso seguir adiante, ultrapassar limites, crenças e a própria
dor!
Ana Saladrigas
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
A vida à dois requer empenho!
Mulheres e homens percecionam as relações afetivas, amorosas e sexuais de
maneiras e intensidades diferentes, fruto de modelos e papéis que remontam aos
tempos paleolíticos, ainda que continuem inscritos até hoje no nosso ADN… Não
há como escapar!
No exercício da minha profissão, acompanho experiências e formas de
relacionamentos distintos entre homens e mulheres; não existe um modelo que
abarque todas as dimensões, contudo posso reiterar que as espectativas de ambos
são muito distintas! Isso confere frustração, instabilidade emocional, baixa
autoestima e sofrimento, tanto no sexo masculino como no feminino.
As mulheres, sobretudo as mais “maduras” são mais exigentes e esperam dos
homens algumas atitudes e características de personalidade, que passam
completamente desapercebidas pelo sexo oposto!
Ainda que cada pessoa e cada relação tenham as suas necessidades e particularidades
e que não haja nenhuma “receita” para relacionamentos “perfeitos”, o certo é
que algumas atitudes fazem a diferença e contribuem, ou não, para a manutenção
de uma vida em conjunto com maior ou menor grau de satisfação.
As mulheres valorizam a educação, gentileza e cordialidade, esperam respeito
e sinceridade, ainda que a frontalidade possa magoar - a isso chama-se lealdade!
As mulheres esperam dos parceiros amorosos ATITUDES – é frustrante para uma
mulher quando os homens dizem frases como “o que decidires está bem”, “faça
como achares melhor” (mas isso é o que já fazemos quando não estamos numa relação!).
É imprescindível nos dias que correm a divisão das tarefas, a tomada de decisão
e a responsabilidade inerente de quem desejou assumir uma relação, uma família
e tudo o que isso realmente implica, sobretudo numa altura de tantos desafios
profissionais e familiares.
A rotina, a “mesmice” do dia-a-dia, cria incondicionalmente um espaço de
algum acomodamento e desilusão, que é preciso colmatar através de pequenas, mas
poderosas atitudes! As mulheres e os homens, gostam de ser surpreendidos! O
fator surpresa desencadeia uma avalanche de descargas hormonais e no caso de
uma surpresa positiva, consequentemente bem-estar! E surpreender não é assim
tão difícil!
Apanhar os filhos na escola e deixar na casa dos avós para um jantar romântico
ao meio da semana, um banho a dois logo pela manhã, uma SMS “apimentada” ou
foto sensual no meio de uma tarde chuvosa… Solte a imaginação! Pequenos gestos “esquentam”
uma relação, basta começar!
Mulheres esperam ser valorizadas pelos companheiros e isso não significa
receber elogios que soem exagerados ou desproporcionais, mas é importante
sentirmo-nos únicas e especiais (quem não precisa não é mesmo ?!). Não devemos
perder oportunidades de reforçar características ou atitudes que apreciamos
(chamamos de reforço positivo), caso contrário essas particularidades
pulverizam-se no “Tempo” e “Espaço” da relação.
Não há nada mais desencorajador para uma mulher que arranjar-se para um
encontro ou jantar (cuidado com o cabelo, uma roupa sensual, um perfume
sedutor) e o companheiro nem dar por isso! Os homens muitas vezes, sobretudo
quando já estão numa relação, tem a tendência de descuidarem-se da própria
aparência, tornam-se mais “desligados”… A atração física e intelectual (para as mulheres é imprescindível
admirar o seu homem) é um importante estímulo para a manutenção do desejo
sexual, por isso algo que precisamos sempre que possível “alimentar”. As
mulheres sentem-se atraídas por pequenos pormenores!
Ser confiante e transmitir confiança é também vital para uma relação. Por
mais envolvido ou envolvida que uma pessoa esteja, precisa dar espaço ao outro.
Somos seres sociais e necessitamos interagir com outras pessoas e com nós
próprios, sim porque não temos todos os mesmos interesses e aptidões e tão
pouco os mesmos “times”. Nenhuma relação é uma ilha e se inicialmente (quando
estamos apaixonados) isso até parece ter alguma “piada”, com o tempo vira um
pesadelo! A liberdade de ir e vir, ter amigos e amigas que não sejam comuns,
participar de eventos distintos, em nada compromete a relação – deve haver
espaço para o desenvolvimento dos diferentes papéis sociais! (filha (o), mãe
(pai), irmã (irmão), aluna (aluno), profissional, mulher (homem), etc.).
Fundamental em qualquer relação existir o desejo de crescer,
desenvolver-se, ou seja, criar metas para o futuro, sejam elas a curto, médio
ou longo prazo. Podem ser “simples” ou mais arrojadas como (arrumar um novo
emprego, estudar algo diferente, trocar de carro, realizar uma viagem)… As
pessoas precisam ter sonhos, alguma ambição, desejo e vontade de crescer,
necessidade de perseguir um caminho em busca de um objetivo, sonhar junto e
individualmente, pois novamente não vamos ter os mesmos desejos, mas deverá
haver espaço para as prioridades de cada elemento do casal e ambos devem
apoiar-se mutuamente para o alcance dessas metas!
O companheirismo é uma atitude implícita aos relacionamentos, contudo as
pessoas queixam-se de sentirem-se cada vez mais sozinhas! Se nos anos 50 – 60 o
grande vilão destruídor das famílias foi o então televisor, atualmente a
disputa é bem mais acirrada! (Tablets, smartphones, redes sociais e outras
tecnologias), que apesar de serem parte integrante da socialização atual, tem
comprometido gravemente as relações afetivas e de intimidade. Há que utilizar
essa panaceia ao favor das relações, equacionar o tempo que dispensamos às centenas
de aplicativos, redes sociais, etc. e àquele que dedicamos aos amigos,
companheiros, familiares, filhos, etc.
Como tudo na vida, uma relação também tem seus momentos menos bons, alguns
até mesmo muito difíceis, quase insuportáveis. Nestas situações é necessário
manter-se presente (sem contudo, ser invasivo), transmitir confiança, oferecer
apoio e conforto, buscar compreender o outro, ainda que a nossa perspetiva acerca
do problema possa ser diferente!
Respeitar fundamentalmente a dor do outro, legitimá-la, sendo assim um elemento
imprescindível na superação do problema, seja ele individual, do casal ou
familiar. A vida à dois, ou em família, requer empenho, dedicação,
flexibilidade, humildade e resiliência (capacidade para lidar com as dificuldades
inerentes e conseguir ferramentas para ultrapassá-las).
sexta-feira, 10 de abril de 2015
A química da paixão
Eu sei que estou em grande falta com todos vocês e lamento o tão pouco tempo que consigo dispor para a troca de informações e conversas "ao pé do ouvido", que julgo importantes e pertinentes.
Hoje para reiniciar essa fase de aproximação, nada melhor que falarmos sobre os sentimentos e a respectiva bioquímica...
É comum no consultório, lidarmos com situações "limites", não apenas traumáticas, mas sobretudo intensas, quer pelo impacto negativo, ou mesmo positivo de alguns sentimentos avassaladores, que são capazes de "desorganizar" todo um sistema adaptativo.
Quem não conhece aquele símbolo da paixão que traz a flecha do cupido atravessando o coração? É uma figura de linguagem popular e antiga, com raízes na mitologia greco-romana. Na imagem, o alvo do deus alado é o coração, provavelmente por causa da aceleração cardíaca e do fogo no peito que sentimos quando cruzamos com quem julgamos ser a nossa tão almejada cara-metade. A flecha no entanto atinge é a cabeça e não o coração! Suspiros, suores, olhares perdidos e todas as sensações comuns àqueles que estão encantados com alguém, nascem no cérebro e são resultado de uma combinação de componentes que se somam a fatores culturais e genéticos capazes de levar suas vítimas às nuvens ou ao inferno.
Havendo interesse por outra pessoa, a química rola com substâncias que provocam sintomas intensos e avassaladores em todo o corpo. Os mais evidentes são o aumento da pressão arterial, da freqüência respiratória e dos batimentos cardíacos, a dilatação das pupilas, os tremores e o rubor, além de falta de apetite, concentração, memória e sono. Tudo provocado por alterações em regiões específicas já identificadas pela ciência com a ajuda de ressonância magnética funcional e outras tecnologias.
Vamos entender quem são as responsáveis por essas alterações!
Uma das responsáveis pelas descargas de emoções para o coração e as artérias é a dopamina, um neurotransmissor da alegria e da felicidade liberado no organismo para potencializar a sensação de que o amor é lindo. Ficamos agitados, corajosos e dispostos a realizar novas tarefas, apesar de dormirmos e comermos mal. “O mecanismo cerebral é idêntico ao de se viciar em cocaína”, diz o neurocientista Renato Sabbatini, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas. O barato é tão forte que o apaixonado pede a Deus – ou aos astros ou a quem quer que seja – que dure para sempre. No livro Por que nos Apaixonamos (Ediouro, 2005), a neurocientista francesa Lucy Vincent afirma que a dependência que o enamorado tem de seu eleito leva a uma espécie de síndrome de abstinência quando eles se distanciam.
Em pesquisas recentes, estruturas do cérebro chamadas núcleo caudado, área tegmentar ventral e córtex prefrontal se mostraram mais ativadas em pessoas apaixonadas. São zonas ricas justamente em dopamina e endorfina, um neurotransmissor com efeito semelhante ao da morfina. Juntos, esses agentes estimulam os circuitos de recompensa, os mesmos que nos proporcionam prazer em comer quando sentimos fome e em beber quando temos sede. Estar em contato com a alma gêmea, mesmo que por telefone ou e-mail, resultará na liberação de mais endorfina e dopamina, ou seja, de mais e mais prazer.
A feniletilamina, parecida com a anfetamina, é outra molécula natural associada a essa avalanche de transformações, assim como a noradrenalina, que contribui com a memória para novos estímulos. Por isso os apaixonados costumam se lembrar da roupa, da voz e de atos triviais de seus amados. Hormônios como a oxitocina e vasopressina, responsáveis pela formação dos laços afetivos mais duradouros e intensos, como o da mãe com o filho, também tendem a aumentar nas fases mais agudas, preparando o terreno para um relacionamento estável.
Novos elementos
Apesar de a ciência já ter mapeado os principais elementos envolvidos no mecanismo da paixão, novos agentes continuam surpreendendo. Em novembro de 2005, a publicação científica americana Psychoneuroendocrinology divulgou um trabalho da Universidade de Pavia, Itália, mostrando que euforia, dependência e outros sintomas estão ligados a proteínas do cérebro. Nos primeiros meses da relação, o componente identificado como NGF – o mesmo que provoca suor nas mãos, entre outras alterações – aparece no sangue em níveis elevados. Os cientistas da equipe analisaram o comportamento da substância em 58 homens e mulheres entre 18 e 31 anos no auge do envolvimento e compararam com um estudo feito com solteiros e indivíduos com relacionamentos de longo prazo, já observando mudanças. Entre 12 e 24 meses depois, avaliaram 39 pessoas que ainda estavam com o mesmo parceiro e viram que os níveis da proteína tinham se normalizado.
Enquanto a maioria das substâncias químicas apresenta níveis mais elevados no auge da paixão, a serotonina, que tem efeito calmante e nos ajuda a lutar contra o estresse, diminui em cerca de 40%. O índice foi observado no estudo da italiana Donatella Marazziti, da Universidade de Pisa. Chamou atenção da pesquisadora o fato de o percentual ser próximo ao da falta desse mesmo neurotransmissor naqueles que sofrem de transtorno obsessivo compulsivo. Para Donatella, isso explicaria o pensamento incontrolável, algumas atitudes insanas, quase psicóticas, e a fixação numa única pessoa na fase aguda. A diferença é que, quando se trata de paixão, essa loucura se resolve em poucas semanas, no máximo alguns meses, com as taxas voltando ao normal, o organismo se acalmando e o amor – estágio seguinte e sem efeitos colaterais severos, inclusive por atuar numa zona diferente do cérebro – tomando conta da pessoa. Outra razão para a queda da serotonina é a produção de mais hormônios sexuais, que facilitam a aproximação e a formação de pares estáveis, uma missão gravada em nossos genes.
O prazo de validade do efeito paixão varia de pesquisa para pesquisa. Sabbatini observa que o fundamental é a paixão passar naturalmente, o que acontece em alguns meses, com o cérebro descarregando menos dopamina e reduzindo as endorfinas. “No auge, as alterações químicas são tão intensas e tão estressantes que, se durarem tempo demais, o organismo entra em colapso”, diz.
Diferenças de gênero
Agora responda rápido: quem é mais fraco para a paixão? A mulher ou o homem? Se você pensa que elas é que se apaixonam mais à primeira vista, não entende nada de mulheres. São os machões que tendem a se deixar levar primeiro pela química. Por outro lado, o encantamento deles costuma ser mais fulminante, podendo durar algumas horas apenas. “Mulheres são mais cautelosas, dependem de romantismo, e a sua paixão é mais baseada no psicológico. Só que, quando se instala nelas, normalmente demora mais tempo para passar”, afirma Sabbatini. As diferenças não param por aí. Fisiologicamente, a testosterona faz os dois sexos entrarem numa espécie de meio-termo na fase inicial do flerte. “Apesar de ser o hormônio sexual típico do homem, ele está presente nos dois organismos, porém em menor quantidade no feminino. Quando ocorre a paixão, a substância aumenta e a mulher sente mais libido sexual. Nos homens, a testosterona cai, deixando-o menos agressivo”, explica.
E o que será que a nossa suposta alma gêmea tem que as outras pessoas ao nosso redor não têm? Uma das teorias mais alardeadas é a de que sempre buscamos feromônios compatíveis. Sinais bioquímicos de disponibilidade sexual, os feromônios são substâncias naturais e inodoras exaladas continuamente pelos animais através de poros, saliva, urina e outros canais. Em borboletas, lobos e macacos, por exemplo, a eficácia desses sinalizadores sexuais é evidente, já que a atração dos parceiros entra pelo nariz. Na espécie humana, há inúmeras teorias que afirmam que os feromônios são essenciais para provocar as primeiras trocas de olhares. Ainda assim, há quem dê mais crédito para a atração física e às boas lembranças de momentos vividos juntos. “Aparentemente, o homem é mais visual”, diz o psiquiatra Teng Chei Tung, do Hospital das Clínicas de São Paulo, especializado em ansiedade e depressão. Ele chama atenção para o fato de os principais testes com humanos usarem a fotografia do ser amado para monitorar as ativações cerebrais. “Provavelmente, num primeiro momento, o indivíduo se decide pela imagem do alvo, buscando atributos físicos que denotem um bom reprodutor – ou reprodutora –, de acordo com os seus padrões. Só que para se chegar à paixão é preciso algo mais, como uma experiência de convívio, de mais motivações que ativem as áreas de gratificação”, diz o psiquiatra.
Paixão ou amor?
Resistir à paixão não é tarefa fácil, pois ela não avisa quando vai se instalar. Pode desembarcar no cérebro a qualquer momento a partir da adolescência. Como também é algo regulado por hormônios sexuais e as mulheres entram na menopausa por volta dos 50 anos, os homens mantêm a capacidade de se apaixonar por mais tempo. Apesar de atuarem em zonas distintas do cérebro, a fronteira entre paixão e amor não está bem definida. Para estudar as diferenças dessas fases – e da atração sexual, que é uma terceira emoção e que também ocorre em outra área cerebral –, a antropóloga americana Helen Fisher, da Universidade de Rutgers, de Nova Jersey, montou um quadro com ajuda de neurobiólogos. É a ordem para ir à caça, com ação intensa de testosteronA primeira etapa para a formação de um casal é a busca pela gratificação sexual urgente.a. A paixão é a atração por uma pessoa em particular, a tal explosão química, irrigada por dopamina, endorfinas e outros componentes. Se correspondida, deve durar o tempo necessário para se conhecer e se decidir se dá para seguir em frente. Quando o fogo baixa, o relacionamento pode continuar, mas o que conta é companheirismo, apego e vontade de dividir o ninho, procriar e cuidar da prole.
A fogueira da euforia, entretanto, pode ficar sem lenha e nem evoluir para a terceira etapa. “Há gente viciada no mecanismo da paixão, que busca um novo objeto de desejo toda vez que os sintomas passam”, diz Sabbatini. “Nas pessoas, quando isso é muito freqüente, pode haver alguma alteração de personalidade, como bipolaridade”, complementa Teng. E tem a turma que nem chega a se apaixonar. “Alguns conseguem bloquear o processo ativando áreas mais racionais do cérebro”, afirma o psiquiatra. “Normalmente, acontece com quem é inseguro ou ansioso. É quando o medo vence nas decisões. Para não correr riscos, racionaliza a situação e bloqueia.”
Ninguém nega que sentir as borboletas no estômago no início da paixão é uma coisa gostosa. O problema é quando a química toda demora a passar e seus efeitos prejudicam o cotidiano e estressam demais o organismo. Pior ainda é se o eleito não corresponde ao apaixonado, que se deprime e se angustia. O que fazer, nesse caso? Existem drogas, normalmente usadas em tratamentos cardíacos, que podem inibir ou pelo menos reduzir sofrimentos provocados pela paixão. Os efeitos desses medicamentos, porém, são passageiros.
Assim sendo, a psicoterapia pode ser um caminho adicional no que diz respeito ao controle de alguns sintomas provocados pelo sistema nervoso simpático (taquicardia, tremores, sudorese, dificuldade de concentração, etc.) através de exercícios específicos e também maior compreensão dos aspetos inerentes ao processo, suas implicações e capacidade de decisão, superação de obstáculos ou mudanças de paradigmas.
Extraído do site: http://super.abril.com.br/cotidiano/quimica-paixao-446309.shtml
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
terça-feira, 29 de julho de 2014
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