segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Como detetar se você está numa relação saudável?


Ainda que dezenas de vezes eu pense em partilhar convosco, algumas reflexões, indagações ou simples “devaneios metafísicos”, constantemente me deparo com compromissos e também muitas “distrações”, que não raramente, me desencaminham do real objetivo.
Sempre gostei de escrever, desde muito “menina” vivia com cadernos a tiracolo, que se transformavam em “diários secretos” (não tão secretos assim), porquê minha mãe lia-os de “cabo a rabo”, o que obviamente causava-me grande indignação, constrangimentos, muitas discussões e não só…
Verdade seja dita, creio ter deixado um pouco o “velho hábito”, também por alguma dificuldade linguística, que atribuo ao facto de ser brasileira e morar há 12 anos em Portugal… Ou seja, já desaprendi como se escreve corretamente o “português do Brasil” e não domino as regras gramaticais, sobretudo no que diz respeito ao uso dos verbos, no “português europeu”. Assim, posso afirmar que a minha escrita, fruto da migração, tornou-se uma idiossincrasia.
Portanto, ainda que possa vir a ferir algumas suscetibilidades, me perdoem tanto brasileiras (os) como portuguesas (es)!
Estou no carro, numa tarde de sábado (isso foi ontem), cinzento e chuvoso, à espera do meu filho mais novo, que está no treino de “Basket”. Como tenho de esperá-lo por mais de hora e meia, resolvo aproveitar esse tempo para escrever alguma coisa de jeito! Procuro por caneta (que de preferência escreva) e algum papel (encontro toneladas de faturas de supermercado e catálogos promocionais) e finalmente entrego-me ao ato, sem pestanejar (sei que para nós brasileiros estas frases soam “um bocado”, estranhas)…
A primeira ideia que surge é escrever sobre “relações tóxicas”, porquê mensalmente acompanho dezenas de pessoas que mantêm vínculos “sanguessugas”, ou como o PE. Fábio de Melo refere em seu livro – Quem Me Roubou de Mim? – indivíduos cujos parceiros (as), “sequestraram a subjetividade do outro”.
Contudo, a fim de romper a retórica de que nós psicólogos, estamos sempre a retratar problemas, achei mais pertinente (ainda mais agora que o frio está à porta), falar sobre ligações saudáveis!
Mas o que é ou deveria ser uma relação salubre??? Ainda que cada indivíduo possa ter diferentes expetativas e conceitos acerca de tema tão vasto e profundo, imagino que algumas premissas sejam fundamentais e “se calhar”, universais… Estar com o outro, seja este outro (a) quem quer que seja, deve “acrescentar” (enriquecer, adicionar) e “edificar” (construir, induzir ao bem e à virtude) o parceiro (a), tornando a vida em comum um processo de partilha, tolerância e autoconhecimento recíproco.
Numa relação saudável há que coexistir o “par” e o “particular”, ou seja, há que ter “espaço” (lugar), para cada indivíduo desenvolver às suas próprias capacidades e interesses, bem como exprimir livremente e sem “amarras” ou “reticências”, seus pensamentos, emoções ou ideologias (religiosas, políticas ou sociais).
Numa ligação construtiva, cada elemento sente-se “incondicionalmente” respeitado e valorizado na sua essência e igualmente desenvolve ou aprimora recursos e estratégias para proporcionar ao outro elemento, a mesma capacidade de “acolhimento” e “satisfação”.
Não, uma relação saudável não é e nunca será perfeita, porquê somos seres imperfeitos e em constante desenvolvimento (físico, emocional, psicológico e social), mas sem dúvida será uma ligação com equilíbrio, equidade e solidariedade. Pessoas que se unem para partilhar uma vida ou parte dela e que estabelecem um vínculo onde não existe espaço para discussões infundadas, desrespeito, desconfiança. Viver um relacionamento salutar é não perder tempo em “discutir a relação” e sim vivê-la; explorar sensações, emoções, partilhar momentos, perspetivar o futuro e recordar com satisfação o passado.
Sugiro que nesse momento, faça um exercício bastante simples. Imagine viver a sua relação (assim, da forma que está nos últimos meses), nos próximos cinco, dez anos ou 20 anos… Veja quais são as emoções e reações físicas, que esse pensamento desencadeia. Feche os olhos e observe atentamente.
Se você vive uma relação saudável, seu corpo e suas emoções manifestar-se-ão dessa maneira! O corpo é sempre o melhor sinalizador. Caso contrário, reflita, fique atento (a) e procure apoio de um profissional.
Excelente semana para todas e todos!

Ana Saladrigas

domingo, 27 de março de 2016


Re-significar a Morte para honrar a Vida!

A morte e o morrer são sempre temas sensíveis de abordar, sobretudo porque tocam a todos nós e aos que conhecemos direta ou indiretamente e diz respeito às experiências do passado, presente e futuro, do qual ninguém fica indiferente.
Contudo, ainda que desde o primeiro suspiro de vida, esteja implícito o derradeiro momento da morte, ninguém (geralmente), nos ensina a morrer!

Com frequência somos “impedidos” de manter um “contato saudável” com a morte, que geralmente ou é tratada como um tema “tabu” e por isso nunca assunto natural de conversas entre familiares e amigos, ou tema de extrema “banalização” (consoante diversos fatores que não cabem aqui, descortinar).

A perda de um ente querido é sem sombra de dúvida uma experiência devastadora – a teoria da vinculação de Bowlby (1980 cit. por Sanders, 1999) diz respeito aos laços afetivos que são criados pela familiaridade e proximidade com as figuras parentais no início da vida. Eles surgem da necessidade que se tem de se sentir seguro e protegido.

A morte não é pensada como um evento natural da vida, ao contrário, é colocada habitualmente num futuro distante e sempre relacionada ao outro. Sentimentos negativos afloram com a morte - insucesso, impotência, rancor, indignação, dor, culpa, perplexidade, desamparo, injustiça diante da perda, etc.

A morte na cultura ocidental, talvez represente de forma mais traumática o sentimento de perda, sobretudo porque evitamos pensar na hipótese de “deixar de ter”, seja o que for! A sociedade e a família mudaram a maneira de ver e “viver” a morte, ainda que a religião, cultura, rituais mortuários, experiências anteriores e muitos outros fatores interfiram na forma como representamos e enfrentamos a morte e o morrer.

Na sociedade capitalista, produtiva e supostamente “saudável”, não existe lugar para a morte, que fica sempre à margem, a espreita de outra “vítima”. A morte não é um castigo, todos nós, bons ou não, vamos morrer! Não existe morte “boa” ou “má” – qualquer morte implica dor, sofrimento, pesar, tristeza…
Do ponto de vista psicológico, existem quatro tarefas essenciais no processo de luto, que devem ser concretizadas para que o equilíbrio seja restabelecido: 

Aceitar a realidade da perda
A aceitação da perda envolve não apenas um processo cognitivo (intelectual), mas sobretudo emocional, que demora o seu tempo cronológico e varia muito de pessoa para pessoa. Os rituais tradicionais (funeral, missas, ou outros consoante a religião), ajudam muitos enlutados a avançarem na aceitação da perda.

Elaborar a dor da perda
A pessoa em luto tem que ter “espaço” para vivenciar a dor causada pela perda (evitar ou suprimir a expressão dessa dor ira provavelmente, prolongar o processo do luto).

Ajustar-se a um ambiente em que o falecido está ausente
Ajustar-se a um novo ambiente tem diferentes significados, dependendo da relação que se tinha com a pessoa falecida e os vários papéis que ela desempenhava. Ainda assim envolve geralmente ajustamentos externos (funcionamento diário no mundo), ajustamentos internos (sentido de si mesmo) e ajustamento de crenças (valores, crenças, considerações sobre o mundo).

Reposicionar em termos emocionais a pessoa que faleceu e prosseguir com a vida.
As memórias de uma relação significativa vão sempre permanecer! Contudo, de acordo com Volkan (cit. por Worden, 1991), o processo de luto termina, quando o enlutado deixar de ter necessidade de reativar a representação do falecido, com uma intensidade exagerada no quotidiano.

Essa parece ser a tarefa mais difícil de alcançar – algumas pessoas ficam condicionadas (presas) a ela e não raro, tomam consciência disso muito tempo depois, quando percebem que as suas vidas ficaram estagnadas após a perda.

Quando uma pessoa consegue recordar, falar e partilhar experiências do falecido sem dor, ainda que com saudades e permite-se reinvestir as suas emoções na vida e nos vivos, podemos dizer efetivamente que o processo do luto está concluído.

A morte demanda aceitação, renuncia, compreensão, aprendizagem e reposicionamentos… Não, não é fácil, mas é preciso seguir adiante, ultrapassar limites, crenças e a própria dor!


Ana Saladrigas

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A vida à dois requer empenho!



Mulheres e homens percecionam as relações afetivas, amorosas e sexuais de maneiras e intensidades diferentes, fruto de modelos e papéis que remontam aos tempos paleolíticos, ainda que continuem inscritos até hoje no nosso ADN… Não há como escapar!
No exercício da minha profissão, acompanho experiências e formas de relacionamentos distintos entre homens e mulheres; não existe um modelo que abarque todas as dimensões, contudo posso reiterar que as espectativas de ambos são muito distintas! Isso confere frustração, instabilidade emocional, baixa autoestima e sofrimento, tanto no sexo masculino como no feminino.
As mulheres, sobretudo as mais “maduras” são mais exigentes e esperam dos homens algumas atitudes e características de personalidade, que passam completamente desapercebidas pelo sexo oposto!
Ainda que cada pessoa e cada relação tenham as suas necessidades e particularidades e que não haja nenhuma “receita” para relacionamentos “perfeitos”, o certo é que algumas atitudes fazem a diferença e contribuem, ou não, para a manutenção de uma vida em conjunto com maior ou menor grau de satisfação.
As mulheres valorizam a educação, gentileza e cordialidade, esperam respeito e sinceridade, ainda que a frontalidade possa magoar -  a isso chama-se lealdade!
As mulheres esperam dos parceiros amorosos ATITUDES – é frustrante para uma mulher quando os homens dizem frases como “o que decidires está bem”, “faça como achares melhor” (mas isso é o que já fazemos quando não estamos numa relação!). É imprescindível nos dias que correm a divisão das tarefas, a tomada de decisão e a responsabilidade inerente de quem desejou assumir uma relação, uma família e tudo o que isso realmente implica, sobretudo numa altura de tantos desafios profissionais e familiares.
A rotina, a “mesmice” do dia-a-dia, cria incondicionalmente um espaço de algum acomodamento e desilusão, que é preciso colmatar através de pequenas, mas poderosas atitudes! As mulheres e os homens, gostam de ser surpreendidos! O fator surpresa desencadeia uma avalanche de descargas hormonais e no caso de uma surpresa positiva, consequentemente bem-estar! E surpreender não é assim tão difícil!
Apanhar os filhos na escola e deixar na casa dos avós para um jantar romântico ao meio da semana, um banho a dois logo pela manhã, uma SMS “apimentada” ou foto sensual no meio de uma tarde chuvosa… Solte a imaginação! Pequenos gestos “esquentam” uma relação, basta começar!
Mulheres esperam ser valorizadas pelos companheiros e isso não significa receber elogios que soem exagerados ou desproporcionais, mas é importante sentirmo-nos únicas e especiais (quem não precisa não é mesmo ?!). Não devemos perder oportunidades de reforçar características ou atitudes que apreciamos (chamamos de reforço positivo), caso contrário essas particularidades pulverizam-se no “Tempo” e “Espaço” da relação.
Não há nada mais desencorajador para uma mulher que arranjar-se para um encontro ou jantar (cuidado com o cabelo, uma roupa sensual, um perfume sedutor) e o companheiro nem dar por isso! Os homens muitas vezes, sobretudo quando já estão numa relação, tem a tendência de descuidarem-se da própria aparência, tornam-se mais “desligados”… A atração física e  intelectual (para as mulheres é imprescindível admirar o seu homem) é um importante estímulo para a manutenção do desejo sexual, por isso algo que precisamos sempre que possível “alimentar”. As mulheres sentem-se atraídas por pequenos pormenores!
Ser confiante e transmitir confiança é também vital para uma relação. Por mais envolvido ou envolvida que uma pessoa esteja, precisa dar espaço ao outro. Somos seres sociais e necessitamos interagir com outras pessoas e com nós próprios, sim porque não temos todos os mesmos interesses e aptidões e tão pouco os mesmos “times”. Nenhuma relação é uma ilha e se inicialmente (quando estamos apaixonados) isso até parece ter alguma “piada”, com o tempo vira um pesadelo! A liberdade de ir e vir, ter amigos e amigas que não sejam comuns, participar de eventos distintos, em nada compromete a relação – deve haver espaço para o desenvolvimento dos diferentes papéis sociais! (filha (o), mãe (pai), irmã (irmão), aluna (aluno), profissional, mulher (homem), etc.).
Fundamental em qualquer relação existir o desejo de crescer, desenvolver-se, ou seja, criar metas para o futuro, sejam elas a curto, médio ou longo prazo. Podem ser “simples” ou mais arrojadas como (arrumar um novo emprego, estudar algo diferente, trocar de carro, realizar uma viagem)… As pessoas precisam ter sonhos, alguma ambição, desejo e vontade de crescer, necessidade de perseguir um caminho em busca de um objetivo, sonhar junto e individualmente, pois novamente não vamos ter os mesmos desejos, mas deverá haver espaço para as prioridades de cada elemento do casal e ambos devem apoiar-se mutuamente para o alcance dessas metas!
O companheirismo é uma atitude implícita aos relacionamentos, contudo as pessoas queixam-se de sentirem-se cada vez mais sozinhas! Se nos anos 50 – 60 o grande vilão destruídor das famílias foi o então televisor, atualmente a disputa é bem mais acirrada! (Tablets, smartphones, redes sociais e outras tecnologias), que apesar de serem parte integrante da socialização atual, tem comprometido gravemente as relações afetivas e de intimidade. Há que utilizar essa panaceia ao favor das relações, equacionar o tempo que dispensamos às centenas de aplicativos, redes sociais, etc. e àquele que dedicamos aos amigos, companheiros, familiares, filhos, etc.
Como tudo na vida, uma relação também tem seus momentos menos bons, alguns até mesmo muito difíceis, quase insuportáveis. Nestas situações é necessário manter-se presente (sem contudo, ser invasivo), transmitir confiança, oferecer apoio e conforto, buscar compreender o outro, ainda que a nossa perspetiva acerca do problema possa ser diferente!
Respeitar fundamentalmente a dor do outro, legitimá-la, sendo assim um elemento imprescindível na superação do problema, seja ele individual, do casal ou familiar. A vida à dois, ou em família, requer empenho, dedicação, flexibilidade, humildade e resiliência (capacidade para lidar com as dificuldades inerentes e conseguir ferramentas para ultrapassá-las).

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A química da paixão

Boa noite!
Eu sei que estou em grande falta com todos vocês e lamento o tão pouco tempo que consigo dispor para a troca de informações e conversas "ao pé do ouvido", que julgo importantes e pertinentes.
Hoje para reiniciar essa fase de aproximação, nada melhor que falarmos sobre os sentimentos e a respectiva bioquímica...
É comum no consultório, lidarmos com situações "limites", não apenas traumáticas, mas sobretudo intensas, quer pelo impacto negativo, ou mesmo positivo de alguns sentimentos avassaladores, que são capazes de "desorganizar" todo um sistema adaptativo.
Quem não conhece aquele símbolo da paixão que traz a flecha do cupido atravessando o coração? É uma figura de linguagem popular e antiga, com raízes na mitologia greco-romana. Na imagem, o alvo do deus alado é o coração, provavelmente por causa da aceleração cardíaca e do fogo no peito que sentimos quando cruzamos com quem julgamos ser a nossa tão almejada cara-metade. A flecha no entanto atinge é a cabeça e não o coração! Suspiros, suores, olhares perdidos e todas as sensações comuns àqueles que estão encantados com alguém, nascem no cérebro e são resultado de uma combinação de componentes que se somam a fatores culturais e genéticos capazes de levar suas vítimas às nuvens ou ao inferno.
Havendo interesse por outra pessoa, a química rola com substâncias que provocam sintomas intensos e avassaladores em todo o corpo. Os mais evidentes são o aumento da pressão arterial, da freqüência respiratória e dos batimentos cardíacos, a dilatação das pupilas, os tremores e o rubor, além de falta de apetite, concentração, memória e sono. Tudo provocado por alterações em regiões específicas já identificadas pela ciência com a ajuda de ressonância magnética funcional e outras tecnologias.
Vamos entender quem são as responsáveis por essas alterações!
Uma das responsáveis pelas descargas de emoções para o coração e as artérias é a dopamina, um neurotransmissor da alegria e da felicidade liberado no organismo para potencializar a sensação de que o amor é lindo. Ficamos agitados, corajosos e dispostos a realizar novas tarefas, apesar de dormirmos e comermos mal. “O mecanismo cerebral é idêntico ao de se viciar em cocaína”, diz o neurocientista Renato Sabbatini, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas. O barato é tão forte que o apaixonado pede a Deus – ou aos astros ou a quem quer que seja – que dure para sempre. No livro Por que nos Apaixonamos (Ediouro, 2005), a neurocientista francesa Lucy Vincent afirma que a dependência que o enamorado tem de seu eleito leva a uma espécie de síndrome de abstinência quando eles se distanciam.
Em pesquisas recentes, estruturas do cérebro chamadas núcleo caudado, área tegmentar ventral e córtex prefrontal se mostraram mais ativadas em pessoas apaixonadas. São zonas ricas justamente em dopamina e endorfina, um neurotransmissor com efeito semelhante ao da morfina. Juntos, esses agentes estimulam os circuitos de recompensa, os mesmos que nos proporcionam prazer em comer quando sentimos fome e em beber quando temos sede. Estar em contato com a alma gêmea, mesmo que por telefone ou e-mail, resultará na liberação de mais endorfina e dopamina, ou seja, de mais e mais prazer.
A feniletilamina, parecida com a anfetamina, é outra molécula natural associada a essa avalanche de transformações, assim como a noradrenalina, que contribui com a memória para novos estímulos. Por isso os apaixonados costumam se lembrar da roupa, da voz e de atos triviais de seus amados. Hormônios como a oxitocina e vasopressina, responsáveis pela formação dos laços afetivos mais duradouros e intensos, como o da mãe com o filho, também tendem a aumentar nas fases mais agudas, preparando o terreno para um relacionamento estável.
Novos elementos
Apesar de a ciência já ter mapeado os principais elementos envolvidos no mecanismo da paixão, novos agentes continuam surpreendendo. Em novembro de 2005, a publicação científica americana Psychoneuroendocrinology divulgou um trabalho da Universidade de Pavia, Itália, mostrando que euforia, dependência e outros sintomas estão ligados a proteínas do cérebro. Nos primeiros meses da relação, o componente identificado como NGF – o mesmo que provoca suor nas mãos, entre outras alterações – aparece no sangue em níveis elevados. Os cientistas da equipe analisaram o comportamento da substância em 58 homens e mulheres entre 18 e 31 anos no auge do envolvimento e compararam com um estudo feito com solteiros e indivíduos com relacionamentos de longo prazo, já observando mudanças. Entre 12 e 24 meses depois, avaliaram 39 pessoas que ainda estavam com o mesmo parceiro e viram que os níveis da proteína tinham se normalizado.
Enquanto a maioria das substâncias químicas apresenta níveis mais elevados no auge da paixão, a serotonina, que tem efeito calmante e nos ajuda a lutar contra o estresse, diminui em cerca de 40%. O índice foi observado no estudo da italiana Donatella Marazziti, da Universidade de Pisa. Chamou atenção da pesquisadora o fato de o percentual ser próximo ao da falta desse mesmo neurotransmissor naqueles que sofrem de transtorno obsessivo compulsivo. Para Donatella, isso explicaria o pensamento incontrolável, algumas atitudes insanas, quase psicóticas, e a fixação numa única pessoa na fase aguda. A diferença é que, quando se trata de paixão, essa loucura se resolve em poucas semanas, no máximo alguns meses, com as taxas voltando ao normal, o organismo se acalmando e o amor – estágio seguinte e sem efeitos colaterais severos, inclusive por atuar numa zona diferente do cérebro – tomando conta da pessoa. Outra razão para a queda da serotonina é a produção de mais hormônios sexuais, que facilitam a aproximação e a formação de pares estáveis, uma missão gravada em nossos genes.
O prazo de validade do efeito paixão varia de pesquisa para pesquisa. Sabbatini observa que o fundamental é a paixão passar naturalmente, o que acontece em alguns meses, com o cérebro descarregando menos dopamina e reduzindo as endorfinas. “No auge, as alterações químicas são tão intensas e tão estressantes que, se durarem tempo demais, o organismo entra em colapso”, diz.
Diferenças de gênero
Agora responda rápido: quem é mais fraco para a paixão? A mulher ou o homem? Se você pensa que elas é que se apaixonam mais à primeira vista, não entende nada de mulheres. São os machões que tendem a se deixar levar primeiro pela química. Por outro lado, o encantamento deles costuma ser mais fulminante, podendo durar algumas horas apenas. “Mulheres são mais cautelosas, dependem de romantismo, e a sua paixão é mais baseada no psicológico. Só que, quando se instala nelas, normalmente demora mais tempo para passar”, afirma Sabbatini. As diferenças não param por aí. Fisiologicamente, a testosterona faz os dois sexos entrarem numa espécie de meio-termo na fase inicial do flerte. “Apesar de ser o hormônio sexual típico do homem, ele está presente nos dois organismos, porém em menor quantidade no feminino. Quando ocorre a paixão, a substância aumenta e a mulher sente mais libido sexual. Nos homens, a testosterona cai, deixando-o menos agressivo”, explica.
E o que será que a nossa suposta alma gêmea tem que as outras pessoas ao nosso redor não têm? Uma das teorias mais alardeadas é a de que sempre buscamos feromônios compatíveis. Sinais bioquímicos de disponibilidade sexual, os feromônios são substâncias naturais e inodoras exaladas continuamente pelos animais através de poros, saliva, urina e outros canais. Em borboletas, lobos e macacos, por exemplo, a eficácia desses sinalizadores sexuais é evidente, já que a atração dos parceiros entra pelo nariz. Na espécie humana, há inúmeras teorias que afirmam que os feromônios são essenciais para provocar as primeiras trocas de olhares. Ainda assim, há quem dê mais crédito para a atração física e às boas lembranças de momentos vividos juntos. “Aparentemente, o homem é mais visual”, diz o psiquiatra Teng Chei Tung, do Hospital das Clínicas de São Paulo, especializado em ansiedade e depressão. Ele chama atenção para o fato de os principais testes com humanos usarem a fotografia do ser amado para monitorar as ativações cerebrais. “Provavelmente, num primeiro momento, o indivíduo se decide pela imagem do alvo, buscando atributos físicos que denotem um bom reprodutor – ou reprodutora –, de acordo com os seus padrões. Só que para se chegar à paixão é preciso algo mais, como uma experiência de convívio, de mais motivações que ativem as áreas de gratificação”, diz o psiquiatra.
Paixão ou amor?
Resistir à paixão não é tarefa fácil, pois ela não avisa quando vai se instalar. Pode desembarcar no cérebro a qualquer momento a partir da adolescência. Como também é algo regulado por hormônios sexuais e as mulheres entram na menopausa por volta dos 50 anos, os homens mantêm a capacidade de se apaixonar por mais tempo. Apesar de atuarem em zonas distintas do cérebro, a fronteira entre paixão e amor não está bem definida. Para estudar as diferenças dessas fases – e da atração sexual, que é uma terceira emoção e que também ocorre em outra área cerebral –, a antropóloga americana Helen Fisher, da Universidade de Rutgers, de Nova Jersey, montou um quadro com ajuda de neurobiólogos.  É a ordem para ir à caça, com ação intensa de testosteronA primeira etapa para a formação de um casal é a busca pela gratificação sexual urgente.a. A paixão é a atração por uma pessoa em particular, a tal explosão química, irrigada por dopamina, endorfinas e outros componentes. Se correspondida, deve durar o tempo necessário para se conhecer e se decidir se dá para seguir em frente. Quando o fogo baixa, o relacionamento pode continuar, mas o que conta é companheirismo, apego e vontade de dividir o ninho, procriar e cuidar da prole.
A fogueira da euforia, entretanto, pode ficar sem lenha e nem evoluir para a terceira etapa. “Há gente viciada no mecanismo da paixão, que busca um novo objeto de desejo toda vez que os sintomas passam”, diz Sabbatini. “Nas pessoas, quando isso é muito freqüente, pode haver alguma alteração de personalidade, como bipolaridade”, complementa Teng. E tem a turma que nem chega a se apaixonar. “Alguns conseguem bloquear o processo ativando áreas mais racionais do cérebro”, afirma o psiquiatra. “Normalmente, acontece com quem é inseguro ou ansioso. É quando o medo vence nas decisões. Para não correr riscos, racionaliza a situação e bloqueia.”
Ninguém nega que sentir as borboletas no estômago no início da paixão é uma coisa gostosa. O problema é quando a química toda demora a passar e seus efeitos prejudicam o cotidiano e estressam demais o organismo. Pior ainda é se o eleito não corresponde ao apaixonado, que se deprime e se angustia. O que fazer, nesse caso? Existem drogas, normalmente usadas em tratamentos cardíacos, que podem inibir ou pelo menos reduzir sofrimentos provocados pela paixão. Os efeitos desses medicamentos, porém, são passageiros.
Assim sendo, a psicoterapia pode ser um caminho adicional no que diz respeito ao controle de alguns sintomas provocados pelo sistema nervoso simpático (taquicardia, tremores, sudorese, dificuldade de concentração, etc.) através de exercícios específicos e também maior compreensão dos aspetos inerentes ao processo, suas implicações e capacidade de decisão, superação de obstáculos ou mudanças de paradigmas.

Extraído do site: http://super.abril.com.br/cotidiano/quimica-paixao-446309.shtml

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

EXCELENTE ARTIGO SOBRE DEPRESSÃO! Em busca da cura.



As estimativas variam. Mas sem nos deixarmos seduzir pelo exagero, é muito provável que pelo menos um em cada dez de nós enfrente a depressão em algum momento da vida. Os sintomas são cruéis: incluem perda de interesse na vida, insônia, impotência, exaustão crônica e até mesmo aumento do risco de doenças, como cardiopatias. A [...]

As estimativas variam. Mas sem nos deixarmos seduzir pelo exagero, é muito provável que pelo menos um em cada dez de nós enfrente a depressão em algum momento da vida. Os sintomas são cruéis: incluem perda de interesse na vida, insônia, impotência, exaustão crônica e até mesmo aumento do risco de doenças, como cardiopatias. A patologia também leva ao isolamento, uma tendência agravada ainda mais pelo estigma associado ao quadro, o que faz com que tanta gente evite procurar tratamento. Quando não tratada, a depressão pode levar ao suicídio – a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a cada 40 segundos uma pessoa atente contra a própria vida de forma direta. Todos esses fatores contribuem para que quadros depressivos sejam hoje considerados como principal causa de incapacitação.

Mas, afinal, o que leva alguém à depressão? A questão, tão complexa, pode ser compreendida sob vários olhares. Fatores genéticos e experiências vividas com pais na infância podem ter grande influência para o aparecimento da doença. Nada disso, porém, determina com certeza que a pessoa apresentará sintomas. Há características específicas de cada um que fazem com que pessoas diferentes reajam de formas diversas às mesmas experiências (veja artigo na pág. 22). Para a psicanálise, a depressão pode ser entendida como o rompimento da rede de sentidos e amparo. “É o momento em que o psiquismo falha em sua atividade ilusionista e deixa entrever o vazio que nos cerca, ou o vazio que o trabalho psíquico tenta cercar; é o momento de um enfrentamento insuportável com a verdade”, afirma a psicanalista Maria Rita Khel, autora do livro O tempo e o cão (Boitempo), ganhador do prêmio Jabuti de melhor livro do ano de não ficção em 2010, que trata do tema da depressão. Algumas pessoas conseguem evitá-lo a vida toda, outras passam por ele em circunstâncias traumáticas e saem do outro lado. “Mas há os que não conhecem outro modo de existir; são órfãos da proteção imaginária do ‘amor’, trapezistas que oscilam no ar sem nenhuma rede protetora embaixo deles.”

O escritor americano Andrew Solomon, autor do livro O demônio do meio-dia (2002), no qual discorre amplamente sobre a depressão, escreve: “A depressão é uma imperfeição do amor”. Por cinco anos ele pesquisou a patologia – relatos de pacientes, causas e efeitos, tratamentos, hipóteses bioquímicas, estatísticas. Recolheu histórias de vida de dezenas de pessoas que passaram por crises depressivas. O trabalho é embasado em sua própria vivência de episódios de depressão.

Do ponto de vista estritamente biológico, há consenso de que a patologia resulta de um desequilíbrio químico no cérebro. E a serotonina é o principal “suspeito” de ser o vilão da história, já que muitos estudos têm relacionado a depressão a baixos níveis do neurotransmissor, o que dificulta a propagação de mensagens através das sinapses (os pequenos espaços entre os neurônios).

A teoria era de que um aumento nos níveis de serotonina deve retornar dinâmica neural e o humor para níveis “normais”. O primeiro medicamento baseado na hipótese de serotonina – fluoxetina, mais conhecida como Prozac – foi lançado no final dos anos 80 e quase todos os antidepressivos subsequentes têm operado com o mesmo princípio geral: manter os níveis de serotonina elevados, impedindo o cérebro de reabsorvê-los.

Mas há um porém: embora tais drogas permaneçam como ferramentas importantes no combate da depressão, esses produtos parecem estar ficando cada vez menos eficazes. Há duas décadas 1,5% da população dos Estados Unidos sofria de depressões que exigiam tratamento. Hoje, esse número subiu para 5%. Parece impossível não se perguntar se a doença cresce com o desenvolvimento da medicina ou se a indústria farmacêutica produz as doenças para os remédios que desenvolve, do mesmo modo que outros ramos empresariais criam mercados para seus produtos.

Estudos clínicos desenvolvidos entre 1980 e 1990 indicaram que essas drogas ajudariam em torno de 85% dos pacientes a entrar em remissão. Mas os estudos na década de 2000 mostraram que os antidepressivos-padrão funcionam apenas em 60% a 70% dos casos – um declínio ressaltado quando o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH, na sigla em inglês), em Bethesda, Maryland, publicou os resultados de uma ampla pesquisa desenvolvida nos Estados Unidos. Ao contrário de inúmeros ensaios farmacêuticos – que muitas vezes “filtram” participantes – este foi o primeiro a medir a eficácia dos antidepressivos em uma amostra da população do mundo real.

O que pode explicar a aparente diminuição na potência de antidepressivos? Talvez os próprios fármacos nunca tenham sido tão eficazes como foi apregoado pela mídia. Para aprovar determinado medicamento, a Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador dos Estados Unidos, só requer dois estudos de grande escala para verificar se a droga é superior a um placebo. No entanto, as empresas farmacêuticas não têm obrigação de fornecer ao FDA todos os estudos que realizaram, apenas os positivos.

Se de um lado pesquisas recentes trazem resultados preocupantes, de outro é inegável que para inúmeras pessoas que sofrem de formas mais graves da patologia os medicamentos se caracterizam como sinal de esperança – ainda que não sejam soluções definitivas e prontas como tantos anseiam. Mesmo sabendo já de antemão que novos produtos não funcionarão igualmente bem para todos, eles trazem alguma esperança.

Uma dessas substâncias, ainda em estudo, voltada para pacientes resistentes aos antidepressivos é a cetamina (ou quetamina), anestésico já usado de maneira ilícita como alucinógeno. No maior estudo clínico até o momento, com 72 participantes, pesquisadores da Escola de Medicina Icahn, no hospital da Universidade Monte Sinai, em Nova York, descobriram que pessoas que não conseguiram responder a nenhum outro tratamento experimentaram alívio de pensamentos suicidas.

Cientistas ainda não sabem precisar o risco da droga, nem quando estará liberada para consumo, mas estudos mostram que, aplicada por meio de injeção, tem potencial de desbloquear receptores de glutamato (neurotransmissores que estimulam as sinapses e, segundo vários pesquisadores, têm níveis muito baixos no cérebro de pessoas deprimidas). Uma vantagem da droga é fazer efeito em menos de uma hora, principalmente considerando que os antidepressivos que existem atualmente no mercado levam pelo menos 15 dias para começar a fazer efeito – uma eternidade para quem está mergulhado no sofrimento. O glutamato desempenha papel fundamental no cérebro, favorecendo processos complexos como aprendizagem, motivação e memória e plasticidade. Vários pesquisadores acreditam que os níveis de glutamato são muito baixos no cérebro da pessoa deprimida, assim como acontece com os de serotonina.

Mas é aí que termina a semelhança. Em vez de simplesmente ajudar no transporte de mensagens entre os neurônios, o neurotransmissor pode influir na plasticidade, contribuindo para incrementar a capacidade de reparação dos neurônios. Essa hipótese é coerente com uma teoria que vem ganhando destaque nos últimos anos, segundo a qual a depressão faz com que alguns dos prolongamentos das extremidades dos neurônios, os dendritos, tendam a murchar. É como se as sinapses se tornassem “pontes quebradas”, o que impede a transmissão das mensagens. Entre outras evidências para apoiar essa teoria está a constatação de que cada episódio sucessivo de depressão parece deixar as pessoas mais vulneráveis a um episódio subsequente.

Outra técnica experimental no Brasil, que também acena como perspectiva para pessoas em estado grave, que não respondem a outros tratamentos, é a estimulação cerebral profunda (DBS, na sigla em inglês). Nesse caso, os médicos colocam cirurgicamente dois eletrodos no cérebro. Os dispositivos, ligados a uma bateria presa ao tronco do paciente, enviam impulsos elétricos constantes. A proposta é que a estimulação promova a liberação de neurotransmissores, causando a diminuição dos sintomas.

Já a estimulação magnética transcraniana (EMT) superficial, reconhecida há um ano no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina, favorece a circulação sanguínea por meio da ação de ondas eletromagnéticas. Indolor e não invasivo, o tratamento estimula a atividade cerebral e é indicado para pessoas que não respondem aos medicamentos nem às psicoterapias. Atualmente pesquisadores estão testando também formas profundas de estimulação.

Ao mesmo tempo, inúmeros estudos já demonstraram que no caso de depressões leves – as mais comuns – o desempenho dos antidepressivos equivale ao do placebo (substância neutra que pode desencadear efeitos psicológicos que tendem a não se manter). Diante disso, cada vez mais psicólogos, médicos e outros profissionais da área da saúde se dão conta de que uma única intervenção pode ser pouco para aliviar o sofrimento dos pacientes: a associação de vários tratamentos, que se adequem a cada pessoa, parece ser o mais eficaz. Nesse sentido, a psicoterapia aparece como um caminho fundamental na busca da saúde.

Há, por exemplo, psicólogos que defendem a ideia de que deprimidos crônicos tendem a se sentir desamparados ao entrar em contato com outras pessoas – e esse sintoma frequentemente tem raízes nas experiências de negligência emocional nos primeiros anos de vida. Assim, trabalham com o objetivo de familiarizar esses pacientes com experiências interpessoais, ajudando-os a perceber que a forma como agem causa efeito nas outras pessoas e no ambiente. Para tanto, em vários momentos o psicoterapeuta diz à pessoa como se sente em relação aos comportamentos dela. Seguindo essa linha, o psicólogo James McCullough, da Universidade Virginia Commonwealth, em Richmond, desenvolveu uma abordagem embasada na teoria do psicólogo suíço Jean Piaget, priorizando o desenvolvimento de habilidades sociais. O sistema de psicoterapia análise cognitivo-comportamental (CBASP, sigla em inglês de cognitive behavioral analysis system of psychotherapy) foi criado nos anos 70, mas somente em 2000 foi divulgada uma orientação prática para psicoterapeutas. McCullough argumenta que pacientes com depressão crônica muitas vezes se mantêm em um estágio anterior do desenvolvimento social e interpessoal: a fase pré-operatória, que, segundo Piaget, engloba do segundo ao sétimo ano de vida.

Nessa idade, as crianças ainda pensam de forma autocentrada, não conseguem se colocar intelectual e emocionalmente na perspectiva de outra pessoa de forma aprofundada. -McCullough relatou que seus pacientes com depressão crônica tinham baixa capacidade de avaliar o efeito de seu comportamento sobre as pessoas. Em sua opinião, isso reforçaria neles a impressão de não conseguir influenciar os outros, o que lhes causaria a sensação de estarem indefesos, à mercê do meio ambiente.

O procedimento prevê que o terapeuta se coloque de forma ativa, sem pretensão de manter a neutralidade, apresentando suas ideias e sentimentos – diferentemente do que em geral ocorre na terapia clássica. Tradicionalmente, a psicoterapia busca modificar vivências fora da relação terapêutica, como conflitos no trabalho ou lembranças de um acontecimento traumático. Mas o paciente costuma transpor suas experiências de aprendizagem anteriores para muitas pessoas – especialmente para o terapeuta. O conceito de transferência foi desenvolvido por Sigmund Freud no início do século passado e desde então vem sendo aprofundado por vários psicanalistas. Embora adeptos de outras abordagens – como a terapia cognitivo-comportamental – muitas vezes combatam as ideias propostas pela psicanálise, o CBASP toma por base esse movimento psíquico e propõe que o próprio terapeuta estimule o desencadeamento de pensamentos, sentimentos e comportamentos depressivos no paciente – com o intuito de modificar padrões de reação inadequados.

Nessa abordagem, ao relatar as próprias reações ao comportamento dos pacientes, o psicoterapeuta espera que as pessoas percebam que quando agem de forma depreciativa e hostil normalmente causam consternação ou irritação nos outros. Além disso, se dão conta de que, com atitudes simpáticas e generosas, despertam desejo de proximidade e gratidão e ainda notam que têm mais chances de obter ajuda com pedidos francos de apoio. No decorrer da terapia, o paciente reconhece que o terapeuta se comporta de forma diferente das pessoas de referência marcantes de sua infância.

O fato é que, qualquer que seja o caminho para reverter ou atenuar os sintomas depressivos, ele possivelmente não será definitivo e, menos ainda, milagroso. Entregar-se ao processo psicoterapêutico requer comprometimento, bem como a adesão ao tratamento medicamentoso, ou mesmo a busca de técnicas usadas para formas mais graves de depressão. Não há dúvida de que seria muito prático comprar na farmácia um frasco com “cápsulas da felicidade”, como há 20 ou 30 anos sonhávamos que seria possível – hoje, no entanto, se sabe que esse é um cenário distante. Cada vez mais, o cuidado consigo mesmo, a meditação e a prática frequente de exercícios físicos são valorizados. E se além de levar em conta esses caminhos em direção a si for possível aceitar que há momentos em que (na contramão do que insistentemente apregoa a mídia) o mais saudável mesmo é ficar quietinho no próprio canto – e triste, por que não? –, melhor ainda. Talvez a postura ensimesmada ajude a compreender que mais do que buscar soluções prontas é necessário construir possibilidades de bem-estar. Sim, pois elas não vêm prontas. E, por incrível que pareça, há momentos (e casos) em que não brigar com a depressão pode ser a melhor forma de combater essa ameaça.

Extraído do site: http://blogs.estadao.com.br/pensar-psi/em-busca-da-cura-da-depressao/


domingo, 11 de maio de 2014

TRÁFICO DE SERES HUMANOS - A ESCRAVIDÃO DO SÉCULO XXI


Na primeira década do século XXI (2001 a 2010) ocorreram muitas descobertas científicas, a Revista Science fez uma seleção das dez mais marcantes, confesso que fiquei surpresa ao saber que avanços na área da “cosmologia” permitiu criar uma sólida teoria que prevê que o universo é composto de apenas 4,56% de matéria comum, 22,7% de matéria escura e 72,8% de energia escura, ou ainda que nove em cada 10 células do corpo são constituídas por micróbios, só no sistema digestivo mais de mil espécies possuem 100 vezes mais ADN do que nosso próprio corpo!

Mas porque comecei a minha explanação acerca do tráfico de seres humanos com isso? Partimos do pressuposto que detemos conhecimento; somos todos conhecedores daquilo que desconhecemos e desconhecemos porque não somos suficientemente humildes para conhecer ou re-conhecer.

Para muitas pessoas, o Tráfico de Seres Humanos é apenas uma “lenda urbana”, mais um “tema” para as novelas, algo fictício, difícil de acreditar. Estamos em pleno século XXI! Os Direitos Humanos essenciais devem ser respeitados! Aos menos na União Europeia, já que ainda não o são na América do Sul, África e Ásia, onde centenas de milhares de pessoas, sobretudo mulheres e crianças, são vítimas de todo o tipo de exploração.

Estamos na era do homem moderno, que com um ipod deixou de ter o mundo aos seus pés, para o ter nas suas mãos. Uma sociedade mercantilista, que trata as pessoas como “coisas” e  que portanto “coisificam” sentimentos e ações. Cada qual olha por si e não mede esforços para atingir os fins, uma sociedade em colapso, estrangulada por Leis que se sobrepõe, que não se fazem cumprir, por processos que se avolumam, atropelam e interpelam. Uma sociedade doente, sem valor, sem moral, escrúpulos ou ética.

Sinto-me exausta, exausta de palavras vazias, perdidas, exausta de ações que param na metade do caminho, porque o caminho é longo, tortuoso e difícil. Estamos na era do “não te metas”, “não fales”, “não dê a conhecer o que pensas”… Mas não foi para ter este direito salvaguardado que lutamos séculos a fio?

Não percebo a dialética, sem a cinética, ou a cibernética, percebo de pessoas de carne e osso, com sangue e vísceras, com hormonas e feromonas… Percebo de indivíduos com passado, presente e sem perspetiva de futuro, percebo de pessoas que buscam ávidas por alguém que as estenda a mão, simplesmente porque precisam que reconheçam e validem o seu sofrimento, acreditem na sua história, na sua trajetória e nas palavras não ditas, no olhar vago, vazio… "Atrás de uma narrativa pode haver outra história" (OTSH). Percebo de gente humilde, analfabeta e letrada, gente que tem a vida do avesso e mesmo assim nunca desistem de lutar, ultrapassar as adversidades da vida, as tempestades e terremotos, gente que cai e levanta, mesmo sabendo que vai novamente cair e se possível for vão novamente levantar, porque a vida é feita de caminhos, escolhas, “não escolhas”, pessoas boas e más, pessoas a quem a vida tudo dá e pessoas a quem a vida tira tudo, mesmo aquilo que nunca tiveram!

Sim, estou exausta das pessoas que só tem corpo e cujas ações não condizem com as palavras, cuja voz “empoderada” nada fala e cujo poder nada serve, a não ser a si próprios. O Tráfico de Seres Humanos é uma violação fundamental dos direitos humanos,  é um fenômeno cujo foco é a exploração em condições de trabalho e vida degradantes, semelhantes à escravatura!

Em 2000, surge o Protocolo da ONU para Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de Pessoas que  define “Tráfico de Pessoas” como o “recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento de pessoas, por meio de ameaça ou uso de força, rapto, coação, fraude, engano, abuso de poder ou de uma posição de vulnerabilidade da vítima em relação ao explorador, ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa, que tenha controlo sobre outra pessoa, para fins de exploração”.
“Embora os números sejam muito contraditórios, estima-se que cerca de 12 milhões de pessoas no mundo sejam reféns deste flagelo social, mais de 800 mil somente na União Europeia. Entretanto os dados conhecidos são muito inferiores aos reais, ou pouco consistentes, uma vez que estão baseados em métodos e números estimativos” (Dra. Maria Grazia Giammarinaro – Juíza Tribunal de Roma - Itália).
Novos aspetos do Tráfico Humano nos colocam diante de muitos desafios para os quais a Legislação ainda não prevê as devidas respostas, apesar das novas Diretivas do Parlamento e Conselho Europeu.
É um fenómeno em constante crescimento, que se reproduz nos mais diversos locais, seja através do Tráfico para Exploração Laboral (agricultura, comércio, construção civil, indústria, pesca, turismo, trabalhos domésticos e todos os serviços que podem ser subcontratados, através de intermediários), Exploração Sexual (indústria do sexo e prostituição), Tráfico para Venda de Mulheres e Crianças, Tráfico para Mendicidade, Extração de Órgãos, etc.
Os meios utilizados para o efeito vão desde a burla, coação, ameaças, subjugação psicológica, aprisionamento, etc. Os traficantes fazem crer que a situação em que o subjugado se encontra é afinal a sua melhor opção.
Dada a sua complexidade, Interdisciplinaridade, Intersecionalidade e Internacionalização, torna-se cada vez mais difícil detetar e intervir de forma célere e eficaz. É fundamental dar visibilidade a este fenômeno, ou seja alterar a perceção que a sociedade, a polícia, os técnicos e a própria vítima têm acerca da situação, bem como fundamentar as práticas preventivas e punitivas, além da otimização dos recursos disponíveis no sentido de melhorar a proteção aos seres humanos em situação de maior vulnerabilidade. Trata-se pois de um fenômeno de grandes dimensões, transversal a todos os Cidadãos, que movimenta milhões de euros.
Outro aspeto que chama a atenção é sobretudo a tolerância das pessoas circundantes e da própria vítima acerca deste tipo de exploração, sobretudo laboral, ainda mais numa altura de forte recessão económica e importantes “cortes” nas Contribuições Sociais.
Diversos fatores contribuem para a disseminação do Tráfico de Seres Humanos, sejam socioeconómicos e políticos, tanto individuais como estruturantes, já que os motivos que levam as pessoas a serem gravemente exploradas são diversos e complexos.
Num esforço para encontrar os motivos pelos quais as pessoas se tornam vítimas de tráfico, os grandes fenómenos globais, como a globalização, a pobreza, a imigração ilegal, a falta de acesso à educação, as desigualdades socioeconómicas das mulheres e a falta de oportunidades de emprego, têm sido implicados como causas estruturantes do Tráfico de Seres Humanos.

A questão da migração, a considerável diminuição das oportunidades de imigração legal, a disparidade económica entre as diversas regiões do mundo, contribui para a existência de um grande número de potenciais trabalhadores. Os desfasamentos entre as políticas de imigração e as realidades do mercado servem para tornar uma grande parte da migração transfronteiriça “ilegal”, aumentando a situação de vulnerabilidade dos potenciais trabalhadores imigrantes. Esta situação é ainda mais agravada, pois a ilegalidade acarreta consigo a falta de reconhecimento dos direitos destes povos nos seus pontos de destino.

Além de vulnerabilidades estruturais, alguns especialistas e organizações têm apontado anteriores abusos físicos, sexuais e emocionais, por exemplo em cenários de conflito bélico, ou por parte de familiares ou conjugues como uma vulnerabilidade adicional para a ocorrência de exploração sexual na prostituição ou em outras situações de trabalho.

A maior parte dos casos de tráfico é nacional ou regional, mas também há muitos casos de tráfico de longa distância. A Europa é por norma o destino final das vítimas, provenientes de diversos locais, traficadas sobretudo da Ásia. O Continente Americano (Norte e Sul) é importante tanto como destino de origem, como de destino das vítimas de tráfico.

O tráfico humano afeta todos os países do mundo, enquanto países de origem, de trânsito ou de destino, ou mesmo como uma combinação de todas estas vertentes. O tráfico ocorre, muitas vezes em países pouco desenvolvidos, onde as pessoas se tornam vulneráveis ao tráfico em virtude da pobreza, de situação de pós-conflito ou de outras condicionantes. A luta contra a discriminação nos países de origem e a conscientização da magnitude do problema, que abarca também a sociedade nos países de destino, torna-se fundamental para reforçar a resposta social circundante, a ajuda, apoio, suporte, qualificação jurídica, legal, assim como alterações nas políticas de trabalho, apoio jurídico, identificação das vítimas e suporte antes, durante e depois do Processo Criminal.

Ana Saladrigas
Acerca do Colóquio Internacional do Tráfico de Seres Humanos / Coimbra Abril 2014